LOCUTORA (Cris Xavier): No episódio de hoje, vamos conversar com o Mestre Hamilton e a Ciranda Sant’anna.
MESTRE HAMILTON: O meu nome é Hamilton Francisco dos Santos Filho, sou conhecido como Mestre Hamilton. Nasci aqui no bairro do Vasco da Gama e hoje estou com 62 anos.
LOCUTORA (Cris Xavier): Mestre Hamilton é herdeiro do encanto pela cultura popular que já pulsava no seio de sua família desde antes do seu nascimento. Em sua alma 100% pernambucana, ele exibe o orgulho por sua sonoridade cultural e nordestina, que está entrelaçada com a ciranda. Ele mantém o fogo sagrado das suas tradições correndo em suas veias; ele é o fio dourado que entrelaça o passado e o presente. Hoje, vamos descobrir juntos a sua jornada e a da Ciranda Sant’anna.
MESTRE HAMILTON: Agora, fui levado para a cultura através da minha mãe. Minha mãe era Ernestina, mais conhecida como Badinha, e Tia Nete também, porque ela também era professora. Então, era uma pessoa educadora, que foi uma pessoa que sempre foi envolvida com a cultura popular; ela tinha sempre uma questão do pastoril, fazia quadrilhas. Então, ela sempre foi uma pessoa envolvida e levou a gente para inserir dentro da cultura popular.
Mas tivemos a influência também dos nossos primos, através da nossa mãe, que lançou alguns dos nossos primos como cantores nos eventos que ela promovia; e, através disso, eles formaram o conjunto que foi o Grupo Caretas, lançou a música ‘Vento Norte’ e foram o nosso grupo de inspiração para que a gente pudesse entrar na música. Diferente da deles, que era um lado do reggae, e a gente entrou com o lado cultural. De uma forma, cada um tinha o seu jeito de entrar para a cultura popular.
O Vasco da Gama sempre foi um bairro altamente cultural. Toda a manifestação cultural que se tinha aqui — mesmo sem ser em época de Carnaval, mas em época de São João, na época natalina — você tinha maracatu, você tinha bloco lírico, tinha pastoril, as quadrilhas… toda manifestação. As ruas eram o local de manifestação e de brincadeira antigamente de toda a população.
Eu amo essa cidade e não tenho vontade nenhuma de sair daqui, principalmente daqui do bairro do Alto da Gama. Eu sou apaixonado por Recife e Vasco da Gama. Eu nasci aqui, nasci e me criei desde a década de 60. Fomos construindo esse laço de amor, de irmandade e de raiz nessa casa 84 da Rua 2 de Maio.
LOCUTORA (Cris Xavier): Inserida na cultura nordestina, a ciranda floresce como um tesouro ancestral, um legado precioso que se enraíza principalmente nas terras de Pernambuco, Alagoas e da Paraíba. Com seus passos cadenciados e melodias encantadoras, ela ecoa em ritmos e mitos da herança afro-indígena, uma expressão única de pertencimento. Nas rodas coloridas da
ciranda, encontramos mais que movimentos graciosos: ali, desvendamos as histórias contadas pelos corpos que dançam, os cânticos que entoam e os instrumentos que ressoam. Cada passo é uma reverência às tradições ancestrais; cada nota, uma celebração da diversidade cultural que molda a nossa identidade.
MESTRE HAMILTON: Eu trabalhei em um grupo cultural chamado Banda Brasafter, que era um grupo que trabalhava com samba-reggae, fazia um pouco de maracatu e um pouco de afoxé também. Mas depois seguiu um outro rumo, que era o lado do reggae, deu continuidade ao grupo. O grupo passou a ser chamado de Banda Afro Cultural Baque Sant’anna. Aí começamos a fazer o trabalho voltado para o maracatu, um pouco de afoxé, e começamos a inserir um pouco de ciranda também. Em determinado momento, vimos que o trabalho estava sendo voltado para a ciranda e estava sendo muito bem aceito.
A forma de cantar, a forma de trabalhar e a vivência em um determinado evento, onde a gente estava tocando no Morro da Conceição e ficamos para fechar o evento… Só tinham praticamente dez pessoas assistindo o evento, porque estava chovendo naquele momento. E a gente começou fazendo samba-reggae, fazendo maracatu, e ninguém estava dançando. Quando a gente começou a tocar ciranda, essas dez pessoas começaram a dançar ciranda. Foi ali que eu atinei e disse: ‘O trabalho da gente tem que ser esse’. Eu já estou cantando ciranda, já estou vivenciando a ciranda há muito tempo. Eu acho que foi aí que eu me encontrei como mestre cirandeiro e consegui fazer com que as pessoas que estavam trabalhando na cultura comigo — e são os meus irmãos e meus filhos — entrassem de cabeça nesse ritmo cultural em que a gente está inserido até hoje, que é a ciranda.
LOCUTORA (Cris Xavier): Mestre Hamilton, e hoje a sua família continua na ciranda?
MESTRE HAMILTON: Hoje a gente está na Ciranda Santana já com três gerações. Que é a minha geração com meu irmão e minha irmã; eu tenho a geração do meu filho Arthur, Adílio, Onilê; e tenho a geração do meu neto, Gabriel. Família Santana. E tudo que a gente faz é Santana. Aí veio Baque Sant’anna, aí se transformou em Ciranda Sant’anna. Todo mundo leva o nome da Família Santana. E tudo que a gente faz é a Família Santana, Família Santana, Família Santana.
Quando a gente voltou a tocar, a gente começou a inserir os filhos na família para que o grupo continuasse familiar. Porque, na época em que a gente trabalhou na banda Brasafter, só eram meus três irmãos. E quando a gente voltou com o Baque Santana, eu inseri meus filhos. Trouxe os meus três filhos e mais o filho da minha irmã, que considero como filho também. Eu acredito que é um trabalho de resistência, um trabalho de família, um trabalho de amor e, principalmente, um trabalho de resgate.
LOCUTORA (Cris Xavier): A ciranda, além de ser um espetáculo artístico, é um eco de resistência que atravessa as gerações, um símbolo de resiliência diante das adversidades. Em suas referências, as letras e melodias encontram
a voz do povo clamando por justiça, honrando suas raízes, exaltando suas conquistas e, claro, falando de amor.
MESTRE HAMILTON: A gente, geralmente, faz ensaio aos sábados. Todo sábado à tarde a gente faz ensaio, até para dar uma roupagem nova numa música, inserir uma música nova, porque geralmente a gente não trabalha só com as nossas músicas. A gente tem um repertório 90% nosso, mas a gente procura inserir algumas músicas que não são do ritmo da ciranda, mas que têm uma coisa que é apreciada por pessoas que são de outro ritmo. E quando têm algumas apresentações, a gente senta para definir o repertório, trabalhar o tempo do repertório para poder ser apresentado. Escuto Santana… Maciel Melo… eu gosto de Petrúcio Amorim… eu gosto muito da turma do sertanejo. Esses caras têm umas poesias bonitas, sabe? Tem coisa que eu escuto assim e dá aquele estalo. Não é para transformar a música dele, mas é pegar alguma coisa que está na música dele inserida e trazer para o meu lado.
Eu tinha uma música que era em homenagem a Nossa Senhora da Conceição, e hoje a gente trabalha ela: ‘Nossa Senhora da Conceição, eu não sei fazer promessa, venho te pedir perdão. Nossa Senhora da Conceição, eu não sei fazer promessa, venho te pedir perdão’. Aí ela fala de alguns bairros da cidade. Aí fala: ‘Navego o Vasco da Gama, passo em Nova Descoberta, Macaxeira e Jenipapo, nas matas de Dois Irmãos’. E por aí vai. Bom, tem uma música mesmo que eu fiz em homenagem a Nossa Senhora do Carmo, que eu estava num momento lembrando da minha mãe, que minha mãe está sempre na minha cabeça. Como ela foi muito voltada para o lado cultural, ela era muito devota de Nossa Senhora da Conceição e da Senhora do Carmo. Aí me veio Nossa Senhora do Carmo na cabeça:
MÚSICA: ‘Senhora do Carmo, oh oh, faço a minha louvação. Ó mãe padroeira, oh oh, dai-me a tua proteção. Senhora do Carmo, oh oh, faço a minha louvação. Oh mãe padroeira, oh, dai-me a tua proteção. Rua Nova, de Flores, Frei Caneca, da Palma, o pátio que corta, a ama fez o bem. Floriano Peixoto, Rua Passo da Pátria, Barão de Vitória, 24 de Maio’.
MESTRE HAMILTON: Aí são todas as ruas que cortam a Igreja do Carmo. Diferente da Nossa Senhora da Conceição, que fala dos bairros.
A gente tinha um segmento próprio logo no início do nosso trabalho, que era voltado mais para o movimento afro, afro-cultural: ‘Sou negro sim, sou negro, sou negro, eu sou teu irmão, tenho o mesmo direito. Sou negro sim, sou negro, sou negro, eu sou teu irmão, exijo respeito. Olha para mim, sinta a minha pele, o meu calor, o meu amor e o meu sentimento’.
Mas hoje eu já estou com outra coisa voltada mais para o lado romântico, o lado do amor. Posso mandar uma música que eu fiz, o nome dela é ‘Linda Flor’: ‘É por você que eu canto, é por você que eu grito, é por você que eu respiro, é por você que eu vivo. Sem teu calor, sem teu amor, não consigo. Volta meu amor, a cabeça dói, pois sem você eu não vivo’.
LOCUTORA (Cris Xavier): Além de ser uma forma de expressão cultural, a ciranda também desempenha um papel importante na integração comunitária e na preservação das tradições locais. Com suas cores e símbolos, a ciranda encanta por onde passe e ainda desperta em nós um verdadeiro desejo de integração. Ao nos misturarmos à dança, letras e ritmo, já não vemos cores, raça, religião ou classe social. Somos todos ciranda.
MESTRE HAMILTON: A gente procura se inserir em todos os ciclos. A ciranda cabe no Ciclo Natalino, no São João, no Carnaval e cabe fora também de todos os ciclos. A ciranda pode estar inserida em qualquer evento. Já toquei em evento de coco, evento de maracatu, de pop e rock, evento de reggae; e a prova maior é que, para se dançar ciranda, basta dar as mãos. É a maior democracia. Você não pede licença nem para entrar nem para sair, mas tem que ser de mãos dadas. A ciranda não tem vivência com religião. Têm pessoas que já passaram por aqui que eram evangélicos, de matriz africana, e tem o lado católico, até porque a gente tem que respeitar todos os lados, né?
LOCUTORA (Cris Xavier): Mestre Hamilton, estamos aprendendo muito com o senhor. Agora, conte aqui para a gente de onde é que vem todo esse estilo?
MESTRE HAMILTON: Então, quando a gente procurou fazer o traje da Ciranda Santana, a gente procurou uma pessoa que fosse ligada à roupa africana, que a gente já usava anteriormente lá quando começamos o trabalho como o Baque Santana e coisa e tal. Procuramos nosso amigo Lassana, que trouxe alguns modelos, e colocamos o grupo aqui; colocamos o modelo de gestão, aí o grupo foi quem decidiu. Eu gosto de sapato social, principalmente de duas cores — pode ser preto e branco, preto com a faixa branca, branco com a faixa preta. Calça, para mim, tem que ser branca, e a camisa tem que ser florida. Ela tem que ser bem estampada; pode ser azul, verde, vermelha. Chapéu branco. Os meus anéis são coisas que eu também carrego sempre; é como se fosse parte de mim, parte da minha vestimenta. Porque, assim, onde eu chego com esse traje, eu já vi que as pessoas chegam e dizem: ‘Que roupa bonita, hein cara?’. Aí eu sempre digo: ‘Minha mãe me disse que, quando eu fosse para todo lugar, eu botasse a melhor roupa que eu tenho’. Então, quando eu chego e as pessoas me sentem assim, eu digo: ‘Poxa…’. Eu me sinto como uma realeza, sabe?
LOCUTORA (Cris Xavier): É assim que a ciranda se torna um marco cultural. Ela carrega as riquezas e os desafios de nossa terra, inspira gerações a preservar e celebrar a nossa diversidade.
MESTRE HAMILTON: Eu espero é crescimento cada vez mais em termos culturais, né? Que a gente possa crescer profissionalmente. A gente tinha um trabalho que era amador, mas que a gente transformou em profissional, e o que a gente pretende é isso: transformá-lo cada vez mais em profissional. E isso pode servir de inspiração para jovens que queiram entrar no lado cultural também.
LOCUTORA (Cris Xavier): E na Ciranda Santana, criança pode participar?
MESTRE HAMILTON: Pode e deve participar. Em qualquer segmento da cultura, as crianças devem participar. Onde há cultura, não há violência. Difícil você encontrar violência onde há cultura. O trabalho da gente é sempre voltado para a criança. E eu botei na cabeça: tenho que fazer uma ‘Ciranda Menina’. E eu vou fazer uma ‘Ciranda Menina’. Já tem uma pessoa inserida, que é meu neto Gabriel, e através dele eu vou conseguir fazer uma ‘Ciranda Menina’. Por quê? A gente precisa dar prosseguimento a isso. Eu tenho muita felicidade de ter meu neto Gabriel dentro da ciranda. Todos eles que participam da ciranda passam por isso desde criança. Meus filhos entraram por conta própria. Quer entrar? Vamos inserir, é até melhor. Começou com família, então vamos dar prosseguimento. Assim: o Gabriel, a gente não pega na mão dele. A gente só mostra e ele que vai tocar. Ele ficava muito como ‘showman’ ali, mas já está passando para tocar caixa, tocar surdo, porque já está com 12 anos, né? 12 anos já está na idade de soltar. Isso é a maior felicidade do mundo.
LOCUTORA (Cris Xavier): E qual mensagem o senhor deixa para a gente, Mestre?
MESTRE HAMILTON: É mensagem de amor mesmo, mensagem de respeito às tradições, mensagem de respeito aos mestres, principalmente àqueles mais antigos. Tem que falar do mestre, tem que falar de Antônio Baracho, tem que falar de Ferreirinha, de João da Guarabiraba, falar de Lia, Dona Duda e falar de tanta gente que está ainda aqui, e falar daqueles que já se foram. Se não fosse por eles, eu não estava aqui. Depois de mim, os outros virão. A importância que eles tiveram para mim, eu vou procurar fazer para os outros que venham depois de mim.
LOCUTORA (Cris Xavier): A ciranda faz história sempre; é uma festa onde o povo brilha com gingado e cantorias. Nos fundos dos quintais, ao clarão do candeeiro, em ruas superlotadas ou em palcos cintilantes, os mestres contam rimas e a magia acontece. A ciranda se espalha como um raio de alegria, marcando no calendário as festas mais animadas. É um cirandar de poesia e música, um dançar que roda e encanta, trazendo o Nordeste vivo em cada passo. Entre mata e cidade, a ciranda se adapta como um camaleão. Seja lenta onde a natureza canta alto ou mais rápida na pressa da cidade, é sempre uma festa sem fim.
Fiquem ligados para o próximo episódio, onde vamos explorar ainda mais um grupo carnavalesco da nossa amada cidade do Recife. Preparem-se para mais cultura, mais ritmos e muito mais alegria. Até lá!
