EP 03 – BOI DA MATA

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EP 03 – BOI DA MATA

LOCUTORA (Cris Xavier): E hoje a nossa conversa é com a Natália Raquel e o Wilson Legário, produtora e coordenador do Boi da Mata. Vamos adentrar numa aventura cheia de cores e ritmos com o Boi da Mata.

Imagine-se no coração do bairro da UR-7, no Recife, onde a resistência pelas tradições dança ao som de tambores e risadas. O Boi da Mata é especial. Ele não só mantém viva a cultura local, mas também protege o meio ambiente e conscientiza as pessoas de que seus atos contra o equilíbrio da mata podem ter consequências graves à comunidade.É como um conto mágico que ganha vida durante as suas apresentações.

WILSON LEGÁRIO: Eu sou o Wilson Legário, estou no Boi desde o comecinho, né? Eu sou o capitão do brinquedo.

NATÁLIA RAQUEL: Meu nome é Natália Raquel. Eu sou produtora, brincante do Boi da Mata. É muito satisfatório, é muito prazeroso levar a alegria, levar cores, levar os sonhos do boi pela rua.

WILSON LEGÁRIO: Fazer isso com alegria é importante, porque o boi, ele mostra isso, né? Ele mostra que dá para cuidar da natureza, dá para cuidar da cultura, valorizar os mais velhos, valorizar os mais novos, de forma alegre, saudável, né? Aqui na Várzea tem o Boi Teimoso. Provavelmente tiveram outros bois, né? Tiveram outros brinquedos populares. Mas o mais antigo é a Burra da Várzea, que está em atividade até hoje. Ela é a avó do boi. E aí o Boi da Mata, ele vem com outras questões, né? As questões que a Burra passou, que o Boi Teimoso passou, não são as mesmas que o boi passa.

O boi traz questões mais atuais. A gente precisa cuidar das pessoas, precisa cuidar do meio ambiente. Se a gente não reverter esse processo, as próximas gerações vão sofrer muito mais do que a gente, né? E aí sabe-lá como é que vai surgir o próximo dos bois.

LOCUTORA (Cris Xavier): Enquanto o boi dança ao som de músicas alegres, todo mundo se une para celebrar. E não é só diversão não. O Boi da Mata também ensina a importância de cuidar da natureza. E lá na UR-7 Várzea, além de unir a comunidade, ele até ajuda a proteger uma floresta especial: a Mata Atlântica.

NATÁLIA RAQUEL: A gente fala, né, que a Várzea é culturalmente ativa e tudo mais. A Várzea é um lugar que tem uma efervescência cultural, o maracatu etc., né? Tem o maracatu, tem a burra, capoeira, tem o hip-hop. Na UR7 não tem. O boi, a princípio, ele é recebido com um certo estranhamento.

Sempre bom lembrar que ele parte também da comunidade, de pessoas que moram lá, que identificam essa problemática de uma mata com a qual a comunidade tem uma relação. As pessoas, os vizinhos, vão lá, pegam água mineral, frequentam o espaço, mas não têm aquele cuidado com o lixo, com a queimada etc.

O boi surge com pessoas que identificam essa questão de: ‘Olha, a gente precisa encontrar uma forma de dizer aqui para os nossos vizinhos que isso aqui precisa de cuidado, que a mata precisa de cuidado’. Ao mesmo tempo, se identifica essa necessidade, se identifica também essa carência de atividades culturais.

Então aqui na Várzea, enquanto aqui embaixo o pessoal está disputando a tapa a praça, a rua da feira, na UR7 não tem esse tipo de movimentação; e o boi, quando surge, ele causa esse estranhamento. ‘Quem são esses barbudos? O que é esse tambor tocando? Pessoal do nada está correndo atrás de um boi?’. O pessoal no ônibus pode pensar isso: ‘O que é um boi passando na rua? O que é que ele está dizendo?’.

Então, também é um processo de tempo, né, entre o estranhamento e o ‘eu vou parar para ouvir o que está sendo dito’. E essas reações de ‘eu corro para o portão para ver o que é’. Algumas famílias interagem, algumas se escondem… adultos que têm medo da alegoria, o que faz parte do mistério, faz parte da brincadeira, né?”

LOCUTORA (Cris Xavier): Nessa brincadeira encantada, as pessoas se vestem com roupas vibrantes. Algumas até se transformam em urubus, Mateus e tantos outros personagens únicos, como, é claro, o próprio boi. Ah, esse boi é uma figura! Feito de diversos materiais e muita imaginação, ele pula, rodopia e é o astro principal desse espetáculo folclórico.

WILSON LEGÁRIO: Tem várias maneiras de fazer os personagens, os adereços, né? E aí a gente tira um urubu de uma arupema, por exemplo, né? O que é a arupema? É a peneira de palha em que se coloca um arame, cobre com pena, pinta, bota uma chita. Quando vê, tem um urubu ali que encanta na hora em que está passando na rua. O pessoal vai dizer: ‘Ó, o urubu está comendo carniça, está mexendo com alguém? O boi, ele já foi feito de várias formas: de uma armação de ferro, da armação de madeira… Hoje em dia é uma armação de alumínio, porque foi pensado para ser mais leve. A cabeça do boi é a cabeça mesmo, mas o anterior não era.

O anterior foi confeccionado com uma cabeça de papelão. De acordo com o material que a gente tem disponível, a gente vai vendo o que é que dá para fazer, o tamanho, cortando…

NATÁLIA RAQUEL: Tem as pinturas também, né? Personagens que saem pintados. É, a gente utiliza também do que tem disponível, né? E lá na mata da UR-7, na bica de água mineral, a gente vai encontrar umas pedrinhas de argila vermelha, que a gente chama de toá.

E quando a gente molha ela assim e passa na mão, ela vira uma tinta. Aí dá para a gente pintar o rosto, dá para fazer desenho no corpo. A gente também tem o urucum, que é aquela frutinha da qual se extrai o colorau. E aí a gente encontra bastante também aqui na Várzea. Abre a frutinha, tira a sementinha e, com um pouquinho de água, a gente consegue extrair uma tinta para fazer a pintura.

Em alguns momentos vai ser o carvão, vai ser a pasta d’água, sempre com a finalidade de recaracterizar. Tem uns personagens que são mascarados e aí a referência é de outra brincadeira, que é o cavalo-marinho, que são máscaras de couro.

WILSON LEGÁRIO: Como a gente trabalha com uma maquiagem muito simples, para ajudar o brincante a encontrar o personagem, as máscaras dizem mais do que ele faz. Muitas dessas características não vão ficar tão ressaltadas na maquiagem, né? A máscara traz esse fim também.

Na prática, a gente se reúne para acender a fogueira às 18 horas, o pessoal começa a tocar. Quando a energia que está ali a gente percebe que dá para chamar o boi, aí vão chegar as crianças, vão chegar os adultos, os mais velhos, o pessoal que está tocando, o pessoal que está dançando, pessoal que está ali só passando… e vai chamar o boi.

Quando o boi sai, primeiro vem o cabra do lampião, que é também a simbologia de que o boi não é só o boi, o boi é uma energia da natureza, né? A partir do momento que sai esse personagem, o lampião e o boi, aí vem todo mundo junto. Vem o capitão, vem o Mateus, vem o cabra do garrafão, vem a velha do urubu, que é a Dona Maria que tinha o urubu, né? Na UR-7, o pet dela era o urubu. Que ia para a farmácia, ia na padaria, todo mundo conhecia.

Não tem nos outros brinquedos, mas tem aquele personagem, por exemplo, o Cagão; é aquele personagem que vai nos locais inadequados e faz suas necessidades, né? Está lá fazendo um cocozinho, aí no meio da trilha vai falar um pouquinho, está mexendo no lixo, sabe? Está deixando tudo ‘craudeado’, que é um personagem que está incomodando, né? Aqui em Recife, o pessoal não sei se fala mais tanto, né? Mas falava um tempo atrás: ‘craudiou’, né? ‘Está craudiado’. Ou ‘está muita gente’, ‘já está incomodando’, ‘já bateu o limite’.

E aí o Craudio, quando chega, está incomodando todo mundo, aí vai dar trabalho para o Mateus, né? O pessoal vai chegar lá: ‘Ó, meu irmão, esse comportamento aí não está tão legal não, sabe?’. Tem o Dono que é aquela pessoa que acha que é o dono de tudo, mas na verdade os donos são quem utilizam as coisas, né? Quem vivencia a mata, a comunidade. Tem um monte de personagem que vai vindo junto, nossos mesmos assim, uns 16, 17. Mas se a gente for incorporar hoje a tradição, aí vai mais de 80, né?

NATÁLIA RAQUEL: São os nossos brincantes. São pessoas que chegam para conhecer a brincadeira uma primeira vez, já têm aquela vontade de participar, já têm aquela afinidade ou se descobrem ali. Pessoas que vão na segunda ou na terceira vez: ‘Ah, desta vez eu quero botar um personagem’.

Os personagens que conduzem mesmo a brincadeira são pessoas do coletivo, que estão na organização com a gente, que é a Cigana, o Capitão, o Boi e o Lampião e o Estandarte. Esse grupo é mais constante, porque tem essa questão da performance. Os outros personagens são inesquecíveis.

Então tem crianças… a gente já teve uma brincadeira em que o Urubu era a filha, uma criancinha assim de 7 ou 8 anos, e a Velha era a mãe. E era muito engraçado porque elas tinham uma sincronia incrível da menina querer ‘trelar’ e a mãe estar atrás com a bengala tangendo o Urubu.

Então a gente consegue desenvolver com esse tipo de experiência. As pessoas que chegam para brincar com as suas bagagens, com as suas experiências de dança, de aprendizagem também, de querer aprender, entender como é isso de virar um personagem. Virar uma figura. A pessoa não é um ator, não é um artista originalmente, mas está ali botando aquela energia para fora.

LOCUTORA (Cris Xavier): Gente, e quanto à musicalidade do boi? Quais os instrumentos utilizados e a origem da sua sonoridade?

WILSON LEGÁRIO: Se tiver só o ganzá, o boi já sai. A maraca também, que é como se fosse um ganzá, só que tem o pandeiro. O bumbo: Tum, tum, tum. Tem o pífano, que faz a relação com a sonoridade do caboclo. E aí vem compondo o que aparecer e vai surgindo assim; quem a gente encontrar no caminho, a gente procura incorporar.

NATÁLIA RAQUEL: Sobre a musicalidade do boi, a gente vai identificar o coco; que no Boi da Mata é o coco de rojão. A brincadeira popular tem, na sua essência, adquirir suas características próprias. Então o coco que a gente toca aqui é diferente do coco que toca na Umbigada, é diferente de outros, mas é tudo coco. Os instrumentos vão chegando. Tem esses elementos que são mais constantes, mas tem sempre algo surgindo.

LOCUTORA (Cris Xavier): É muito bom aprender com o Boi da Mata. Que tal aprendermos um pouco sobre os símbolos e as cores desse grupo?

WILSON LEGÁRIO: O primeiro estandarte do boi foi pensado em algodão cru. Algodão cru e o verde da mata. Durou uns dois anos e a gente ficava: ‘Ó, está muito verde, tem que colocar um vermelho aí’.

Aí um irmão nosso, que pensou o desenho do estandarte, fez: ‘Não, vamos colocar um vermelho aqui. Está muito apagado’. Aí ficou o verde e o vermelho, né? As outras cores são, realmente, para deixar mais bonito, para estar equilibrando a chita. Nessas questões visuais assim, a gente evidencia mais o verde e o vermelho. Não é uma seita, não é uma religião… Tem pessoas que participam que não são religiosas. Com relação à religiosidade, eu acho que cada um carrega a sua, né?”

LOCUTORA (Cris Xavier): O Boi da Mata desempenha um papel importante no seio da comunidade e promove entretenimento sempre que vai às ruas. É uma brincadeira muito querida para crianças e adultos, jovens e idosos. Do meio da mata até o centro da cidade, sempre arrasta e encanta.

WILSON LEGÁRIO: O Boi da Mata não para não! A gente saía, no início, todo mês, todo terceiro sábado do mês. Depois a gente viu que durante a chuva não

dá. Aí em julho a gente dá uma paradinha. Agora a gente está vendo que para fazer todo mês também, por enquanto, não estava dando. Então a gente vai fazer, durante o ano todo, mais algumas edições. Não vai ser um calendário fixo.

E as crianças participam; não é algo só para as crianças. Algo que a gente está fazendo e as crianças fazem parte, ou elas demandam e a gente vai lá e incorpora. Seja na montagem da fogueira, seja tocando instrumento, botando personagem… porque tem essa ideia também de criar um ambiente em que as crianças fiquem seguras espontaneamente.

Então a gente está na rua, a gente está ocupando a rua, a gente está chamando as pessoas para estarem ali enquanto as crianças decidem se jogam bola, se correm atrás dos personagens… Em alguns momentos a gente consegue fazer um quebra-panela.

LOCUTORA (Cris Xavier): Ah, que pena que já estamos no final da nossa conversa. Natália e Legário, vocês têm mais alguma coisa para partilhar com a gente?

NATÁLIA RAQUEL: Que ele continue abrindo caminho. Que ele possa continuar levando essa mensagem do cuidado com o meio ambiente, com as pessoas, né? Que ele continue despertando potenciais. As crianças são super bem-vindas; que tragam seus pais para a brincadeira, que tragam suas famílias para a brincadeira, que descubram também… o boi também traz essas possibilidades de se desenvolver a partir de algo, de se inspirar no boi.

WILSON LEGÁRIO: Passar a agradecer a quem veio antes, né? Porque nada disso está registrado em livro, não é transmitido na escola. Dá para aprender de forma lúdica, divertida, coisas sérias também. Os personagens vão trazer de forma irreverente, mas são questões importantes: o cuidado com a água, o cuidado com a natureza. Agradecer a quem se esforçou para a gente estar fazendo esse trabalho tão bonito; que vieram, que não estão mais, que vão chegar… Então, acho que agradecer esses encontros com a vida. Acho que é bem por aí.

LOCUTORA (Cris Xavier): Com o Boi da Mata, aprender sobre cultura e meio ambiente se transforma em uma grande festa e brincadeira. E cada momento de celebração nos ensina que cuidar da natureza é tão importante quanto sorrir e dançar. Vale muito a pena fazer parte desse mundo de encanto e alegria com o Boi da Mata.

E por hoje ficamos por aqui. Fiquem atentos aos próximos episódios, que também estarão recheados de conhecimento, diversão e muito, muito Carnaval!

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