LOCUTORA (Cris Xavier): E nesse episódio iremos conhecer um pouco sobre o Bloco Infantil Cupim de Ferro. Imaginem só, uma multidão de pequenos foliões dançando e sorrindo ao som dos melhores frevos, com as suas fantasias coloridas brilhando à luz do dia, em pleno domingo de Carnaval. É pura animação, e o Bloco Infantil Cupim de Ferro, há 30 anos, leva o seu encanto às ruas, e as crianças são as estrelas. E não é só isso: além da música e da dança, o bloco conta com surpresas e brincadeiras que deixam todo mundo com um sorriso no rosto.
Cada passo de frevo é carregado de alegria e cada sorriso é um pedaço de felicidade que ecoa, criando memórias inesquecíveis de carnavais mais do que animados.
ROSÂNGELA MARIA DOS SANTOS: Meu nome é Rosângela Maria dos Santos, eu tenho 65 anos e nasci aqui em Casa Amarela, no Recife.
Como minha mãe era professora, ela fazia muitos eventos, fazia pastoril, fazia quadrilha e geralmente eu era do cordão azul. Porque antigamente tinha esse negócio: ‘Não, negro de vermelho não presta, tem que ser de azul que fica melhor’. Então tinha isso. Eu acho que eles já tinham esse preconceito.
Eu entrei para fazer backing vocal na banda do meu primo, em que meus irmãos já tocavam. Aí eu entrei para fazer parte da Brasa África, passei uns tempos na Brasa África, depois, quando eles saíram, eu saí também.
‘Olha para mim, sinta a minha pele, o meu calor, o meu amor, o meu sentimento, vivo penando, lutando, buscando, querendo carinho…’
E depois que eu saí, eu passei uns tempos sem cantar; foi quando o meu irmão decidiu voltar com o Baque Santana e me chamou para voltar fazendo sempre backing. Depois do Baque Santana passou para ciranda, agora já tem músicas que eu canto só e meu irmão canta outras só, eu faço backing dele. Agora está assim; eu sempre gostei muito de cantar.
LOCUTORA (Cris Xavier): Rosângela, como o bloco iniciou suas atividades?
ROSÂNGELA MARIA DOS SANTOS: Foi através desse meu irmão, esse que faleceu, é o José Bonifácio. Ele sempre teve assim… foi muito ligado à cultura lá no Morro, aqui. Fez muita parte. Então, meus filhos andavam muito com ele.
Como ele era assim, os meninos procuravam muito ele para fazer brincadeiras, para ensinar qualquer coisa aos meninos. E quando chegava o Carnaval, os meninos queriam sair tocando, batendo na lata, como toda criança, para fazer zoada, para brincar. Aí chamaram ele. Ele disse: ‘Pronto, vamos fazer assim’. Fez máscaras para os meninos de saco de pão, aquele saco antigo de papel. Pronto, ele fez as máscaras, os meninos vestiram, pegaram latas, pedaço de pau e começou com aquele: ‘Para lá, oça, quer dinheiro? Quem não dá é
pirangueiro nessa rua!’. Depois, ele já foi querendo formar, chamando os meninos para aprender a dançar frevo para formar um bloco.
Ele começou a fazer ensaios aos domingos, os meninos vinham para cá, os meninos daqui da rua e de outras ruas, iam chamando um ao outro. A gente ligava a radiola aí fora e começavam os meninos a pular, a fazer o passo, até que ele decidiu sair nesse ano com o bloco.
Então, a gente começou a quebrar a cabeça para fazer roupa, para arrumar isso, para arrumar aquilo, para arrumar orquestra, para botar o bloco na rua. Foi assim que começou o bloco e até hoje, todos os anos, o bloco sai. Faz 33 anos, só não saiu na pandemia.
LOCUTORA (Cris Xavier): Cupim de Ferro? De onde saiu esse nome tão criativo?
ROSÂNGELA MARIA DOS SANTOS: Cupim de Ferro agora por quê? Os meninos, quando vinham ensaiar aqui na frente… a rua não era asfaltada, era daquele barro que, quando você batia, a poeira subia. Era desse jeito. Os meninos ciscavam assim que a poeira subia.
Aí meu irmão disse: ‘Eita, esses meninos parecem uns cupins quando começam a dançar, uns cupins de ferro, porque, olha, para aguentar esses meninos… porque eles ciscavam assim e a poeira subia’. Aí ficou Cupim de Ferro, Cupim de Ferro, pronto. Porque cupim come madeira, mas os daqui eram fogo, comiam o ferro mesmo.
A imagem do cupim com a sombrinha… “É, o mascote é o cupim com a sombrinha. Tem o boneco, né, do meu irmão. Sempre foram essas cores, vermelho e amarelo. O vermelho e o amarelo. Eu acho que o vermelho é amor, o vermelho eu acho que é o amor. E o amarelo, eu acho que é a riqueza cultural, que é o mais importante, né?
LOCUTORA (Cris Xavier): O Bloco Carnavalesco Infantil Cupim de Ferro é uma encantadora agremiação carnavalesca que desfila pelo bairro do Vasco da Gama, em Recife. Este bloco infantil é bem famoso na região por contar com apresentações animadas e ainda pelo envolvimento alegre das crianças, que se divertem muito com as tradições carnavalescas. Desde cedo, os pequenos foliões são convidados a embarcarem em uma aventura cultural, repleta de cores, música e muita alegria.
ROSÂNGELA MARIA DOS SANTOS: É, como já faz 30 anos, né? A gente fica no boca a boca. Um chamando o outro, porque o dia todo mundo já sabe qual é. É um dia fixo. É o domingo de Carnaval, Rua 2 de Maio, 84. Quem quiser pode entrar, a partir das 4 horas da tarde. Aí a gente diz: a partir das 3 horas todo mundo começa a se reunir, trazer suas crianças, seus titios, suas mamães, suas vovós, seus vovôs. Porque é um bloco de criança, mas todo mundo pode vir. É um bloco para a família.
Arrumamos com a prefeitura a orquestra, porque a gente só sai com orquestra no chão. Tem que ser o frevo raiz mesmo. E os outros, os irmãos, os primos, sobrinhos, correm atrás dos amigos. O pessoal aí na padaria, a gente vai atrás. As vendas que têm por aqui, a gente vai atrás; pede a um, pede a outro. Cada um dá uma contribuição, porque depois tem que ter o lanche das crianças. Animação é, viu? Porque as crianças gostam.
A gente coloca uma corda para tomar só um lado da via, para deixar o outro para os carros e também por conta da segurança das crianças. A gente coloca a corda, coloca o estandarte na frente, o dos adultos, e o estandarte das crianças atrás. As crianças querem segurar o estandarte e o grande não dá, é pesado. Então a gente fez um pequenininho, o primeiro, que é menor, e deixou para as crianças. Então cada um segura um pouquinho. ‘Eu quero segurar o estandarte!’, e aí cada um vai um pouquinho. Pronto. E a orquestra atrás, e segura a corda, os pais deixam as crianças lá dentro. Pronto, e vão pulando atrás.
Às vezes — não foram todos os anos, mas teve alguns anos — que a gente fez a festa das crianças; a gente trouxe brinquedos para botar aqui na rua para as crianças. A gente já fez Natal também para as crianças, para dar brindes, saquinho de leite com peito e sempre o bolo, né? O lanche não pode faltar. O bolo, o cachorro-quente, o Guaraná.
LOCUTORA (Cris Xavier): O bloco infantil Cupim de Ferro realmente alcança toda a família, e isso é maravilhoso porque fortalece os laços familiares, cria memórias afetivas e é uma excelente oportunidade para as crianças aprenderem sobre a cultura e as nossas tradições. Ao participarem do bloco, elas têm a oportunidade de se encantar com a música, a dança e as fantasias, garantindo assim a possibilidade de que nossas raízes não se percam.
ROSÂNGELA MARIA DOS SANTOS: Elas gostam muito desse incentivo cultural que as crianças delas estão recebendo. Isso é o que faz, eu acho, a gente pensar: ‘Não, a gente tem que continuar, que é para que isso não termine aqui, não pare aqui’. Tem que continuar. Animação, porque a gente gosta da cultura. A gente gosta da cultura, gosta do frevo e quer também que esses que estão vindo atrás da gente continuem com a cultura.
Não deixa a cultura ficar só nos livros, porque nos livros você não vai saber o que é realmente a cultura se você não vivenciar. Se você não vivenciar a coisa, você não vai saber como é. E os livros pouco falam. Se você for procurar nos livros, pouco se fala. Agora está mais um pouco.
É prazeroso porque, pelo que eu estou vendo, a cultura cada vez mais está diminuindo, está acabando. Estão vindo outras coisas e a cultura está sendo esquecida um pouco. Isso é a raiz de um povo. E se você corta essa raiz, mais tarde você vai dizer o quê? Você vai mostrar o quê?
Mas, enquanto a gente tiver os olhos abertos e o coração batendo, a gente segue em frente e procura colocar na cabeça dos mais jovens para irem
também atrás, quando a gente não tiver mais aqui, mas que eles continuem fazendo esse papel. O que não pode é deixar para lá, é esquecer.
LOCUTORA (Cris Xavier): E qual mensagem você pode deixar para a gente, Rosângela?
ROSÂNGELA MARIA DOS SANTOS: É que não deixem a cultura morrer, que cultura é a coisa melhor do mundo. E convidem seus amigos, seus pais, seus avós, seus titios, suas titias, que venham participar do nosso bloco no domingo de Carnaval a partir das 15 horas. A gente já está se concentrando, muito animado. Venham com suas fantasias, que aqui o bloco é aberto, aberto para todos que quiserem!
LOCUTORA (Cris Xavier): E aí, gente? Gostaram de conhecer esse bloco infantil incrível? Mas a aventura não para por aqui. No próximo episódio vamos explorar ainda mais as surpresas e tradições do nosso fantástico Carnaval!
