EP 06 – REIZADO IMPERIAL

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EP 06 – REIZADO IMPERIAL

LOCUTORA (Cris Xavier): E no nosso episódio mágico de hoje, vamos falar com o mestre Sérgio Almeida, do Reisado Imperial. No interior do Nordeste, a brincadeira do Reisado é uma tradição muito especial. No Recife, o grupo Reisado Imperial é a única manifestação na linha desse tipo. Esse grupo singular foi liderado por muitos anos pelo querido mestre Geraldo Almeida (in memoriam), que, mesmo com a idade avançada, fazia questão de levar a alegria do Reisado a qualquer lugar.

O grupo é tão encantador que o mestre Geraldo achou que não deveria brilhar só no Natal. Então, ele criou o Clube Carnavalesco Reisado Imperial, que desfila no Carnaval também, trazendo alegria e cor para as ruas durante o Reisado de Momo, até os dias atuais.

MESTRE SÉRGIO ALVES DE ALMEIDA: Eu sou Sérgio Alves de Almeida, pernambucano da Gema. Da Gema, eu digo porque nasci no Recife.

Eu nasci em 1953 e sou filho do grande mestre da cultura popular, mestre Geraldo. Desde os 9 anos que eu trabalho nesse negócio da cultura e, antes de ele morrer, ele já tinha passado para mim. Eu já era presidente antes de ele morrer. Porque o Reisado, por incrível que pareça, só teve ele como presidente e eu. Uma agremiação com 72 anos. E ele era um cara que sabia administrar, um administrador correto.

O mestre Geraldo nasceu no estado da Paraíba, numa cidade chamada Serra Raiz. Veio para Pernambuco com a idade de 16 anos e não voltou mais. Ficou aqui, trabalhou no Cais do Porto, meu pai era arrumador. E em 51, ele fundou nesse local aqui o Reisado Imperial. Um amante da cultura. Fundou também a Ciranda Imperial, a Orquestra Popular da Bomba do Hemetério.

Ele tinha aqui um grupo de marujada, que chama Marujada porque é tudo trajado de marinheiro. E meu pai era contramestre de marujada. E a única coisa que ele criou depois do Reisado, que ainda está, é a Ciranda Imperial, um grande nome da nossa cultura. E o Reisado Imperial da Bomba do Hemetério… eu sou músico, toco trombone. Aí eu mantenho; a gente se apresenta em festas, no Carnaval, e eu vou manter também até morrer. Não deixo não.

LOCUTORA (Cris Xavier): Os Reisados são grupos que cantam e dançam pelas ruas na véspera do Dia de Reis, dia 6 de janeiro, para comemorar a chegada do menino Jesus. Essa tradição veio com os colonizadores portugueses e se espalhou pelo Brasil, inclusive no Sudeste. No entanto, é no Nordeste, especialmente em Alagoas, Bahia, Paraíba, Pernambuco e Sergipe, que essa festa continua mais viva e forte.

No Recife, só o grupo Reisado Imperial mantém essa tradição acesa.

LOCUTORA (Cris Xavier): O Reisado Carnavalesco, ele não tem nada a ver com o Reisado Folclórico. Foi uma descendência do povo. Reisado é uma dança natalina, representa o ciclo natalino e representa o nascimento do menino Jesus. Pernambuco tem um Carnaval muito forte, sempre teve, né? Não é só agora.

E o Reisado, por ser uma brincadeira religiosa, quando chegava no Carnaval, ele parava. Era até 6 de janeiro, porque tem essa história aí, viu? O Reisado brincava o ano todinho e celebrava no dia 6 de janeiro, que 6 de janeiro é Dia de Reis, dia de Reisado. E os grandes mestres diziam que o Reisado foi introduzido no nascimento do menino Jesus, aquela história do Rei Mago, entendeu? Que tem as loas do Reisado e fala nisso aí. O Carnaval… eles brincavam o ano todo. E naquela época meu pai brincava mais assim, na frente da casa de fulano e sicrano, e não tinha verba não. Brincava por amor.

LOCUTORA (Cris Xavier): Mestre Sérgio, e como o grande mestre Geraldo trouxe essa brincadeira para as bandas de cá?

MESTRE SÉRGIO ALVES DE ALMEIDA: “Em Pernambuco tem Reisado. Mas o Reisado é de origem alagoana, na Paraíba… Meu pai brincou Reisado com 6 anos de idade. E lá o nome não é Reisado, é Boi de Reis. Só que é a mesma coisa. Porque como tem vários estados… o Ceará tem Reisado, Alagoas, que é o lugar-chefe do Reisado, e Paraíba. Aí eles mudaram o nome, mas pai, como pai brincou lá, aí pai veio para aqui e traduziu aqui: ‘Eu vou criar um Reisado’. Aí traduziu aqui, porque é registrado em 51, mas antes ele já praticava.

Aí, daqui ele começou e se deu muito bem. Ele era muito conhecido por causa do Reisado. Falavam do Reisado, que a gente chamava isso, ele, de Reisado. Porque ele era um amante da cultura, gostava muito. Eu chego a me emocionar falando essas palavras.

LOCUTORA (Cris Xavier): E que tal mostrar um pouquinho das loas e canções que são entoadas durante a brincadeira?

MESTRE SÉRGIO ALVES DE ALMEIDA: “Boa noite, meus senhores, senhores que estão presentes. Foi Jesus quem nasceu com os três Reis do Oriente. Batia e cantava o galo quando o Salvador nasceu. Em Belém, à meia- noite, nasceu o menino Deus.” É valsa, é tipo assim: “Onde estava, onde estive, onde estou? Cadê meu amor que mandou me chamar? Nesse contramestre, vá para seu lugar, vamos levar a contradança do Reisado Imperial.”

“Natal, Natal, menino Jesus nasceu. Natal, Natal, nasceu o Filho de Deus. 24 de dezembro, meia-noite deu sinal. Vamos louvar a primavera, hoje é noite de Natal, para celebrar o Natal representando o nascimento do menino Jesus.”

“Maio, maio, maio, laranja do pé da serra, fruta de moça chupar, as moças chupam laranja debaixo do laranjal.”

LOCUTORA (Cris Xavier): O Reisado é uma festa animada, cheia de cantores e dançarinos, e cada Reisado tem seu jeitinho de brincar. A apresentação conta com uma grande abertura, seguida pela entrada dos participantes, a louvação ao divino, a chegada do rei, danças vibrantes e até encenação de batalhas. A música é feita com instrumentos diversos, criando uma trilha sonora mágica para a celebração.

MESTRE SÉRGIO ALVES DE ALMEIDA: Eu sempre ia lá em Garanhuns, que é a terra que tem mais Reisado. Eu falei que Alagoas criou, mas Garanhuns, aqui em Pernambuco, é Garanhuns e Santa Maria da Boa Vista. Só que o de Garanhuns, ele é mais tradicional. A dança do Reisado lá, que tem lá em Garanhuns, é quase a mesma que a nossa. Só não tem o que a gente tem porque a gente usa bombo, caixa… e o Reisado de lá tem sanfona, tem rabeca. No Reisado de Garanhuns tem violão. O violão e pandeiro não têm esse ritmo; é uma coisa assim, mas não deixa de ser bonito, não. Cada um tem seu sistema. E a música não é só esse ritmo; tem outra que é ritmo de marcha, xaxado, ritmo de baião… O Reisado Imperial tem músicas que outros Reisados cantam, entendeu? Parecidas. Mas o Reisado Imperial meu pai criava. E meu pai era cantor e compositor de cultura popular.

LOCUTORA (Cris Xavier): Mestre Sérgio, fale um pouco sobre as cores e vestimentas do Reisado Imperial.

MESTRE SÉRGIO ALVES DE ALMEIDA: Isso aqui é para representar meu estado. Eu tenho orgulho de ser pernambucano. Isso aqui, quer dizer, é a indumentária do Reisado. E você pode ver que, onde você chegar, se você pegar no YouTube, tem vários Reisados de Garanhuns e o chapéu é desse mesmo, né? Eu tenho outro de outro tipo, sabe? Cada um quer fazer o seu melhor, né? Tem as golas, várias golas… no Reisado, a indumentária. As golas são enfeitadas com espelho, com lantejoula… com essas fitas, que a fita está embaixo. Tem a calça, a blusa de dentro com a gola em cima, esse chapéu aqui.”

LOCUTORA (Cris Xavier): E o senhor deixou alguma mensagem para a gente?

MESTRE SÉRGIO ALVES DE ALMEIDA: Queria que essas crianças de hoje pensassem, refletissem. Isso depende muito dos pais, né? Às vezes o pai diz que não pode, a mãe diz também que não pode, aí isso complica. O certo, o certo que a gente defende, é usar os mestres dentro da sala de aula. Isso aí a gente está até batendo e está chegando meio forte, que é para ter no muro essa tradição nossa. Recife, o estado de Pernambuco, é muito forte. Forte por quê? Porque tem Ciranda, tem Reisado, tem Maracatu, tem Boi-Bumbá, tem Cavalo Marinho. E isso é um legado que eu vou levar para sempre. Eu sei que eu não tenho muito tempo para frente, porque eu já tenho 70, né? Mas eu vou chegar lá. A idade do meu pai está bom demais; ele morreu com 95 anos.

LOCUTORA (Cris Xavier): Por onde o Reisado Imperial passa, encanta. E nós também temos a missão de encantar a todos a cada episódio. Por isso, não perca o próximo. Até lá.

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