LOCUTORA (Cris Xavier): Nesse episódio iremos conhecer um pouco da história do Clube Carnavalesco Misto Lenhadores. O Clube Carnavalesco Misto Lenhadores é mais uma preciosidade da cultura pernambucana, sendo o terceiro mais antigo do Recife, ficando atrás apenas do Clube das Pás e do Vassourinhas.
Fundado em 5 de março de 1897, quando alguns diretores do Clube das Pás, descontentes com a influência feminina no clube, decidiram criar sua própria agremiação enquanto cortavam lenha na mata. Inicialmente chamado de Clube do Machado, depois Clube do Machadinho e, por fim, Clube dos Lenhadores, ele ganhou o nome de Clube Carnavalesco Misto Lenhadores. O clube funcionou por muito tempo na Rua da Glória, ainda na Boa Vista, antes de transferir-se, na década de 1950, para o bairro da Mustardinha.
MARIA CLETA CAMELO DE SOUZA: “Meu nome é Maria Cleta Camelo de Souza, sou diretora administrativa aqui do clube. Estou aqui no clube há uns 12 anos. A história dos Lenhadores era todo mundo do Clube Carnavalesco das Pás; funcionários e ex-funcionários dos portos daqui, do Porto do Recife.
Teve um movimento nas Pás para uma mulher se candidatar a presidente do Clube das Pás, mas aí um grupo de pessoas, de associados, não aceitou e resolveu criar esse clube, que é o Clube Carnavalesco Misto Lenhadores. A primeira sede dos Lenhadores, pela informação que eu tenho, foi instalada na Rua da Glória, no bairro da Boa Vista.
A luta para se manter esse clube, isso faz parte da história. Nós tivemos muitos ex-presidentes que lutaram muito pelo clube e o nosso presidente atual é um cara muito aguerrido, muito lutador. Ele é capaz de dar a vida.
LOCUTORA (Cris Xavier): Toda sexta-feira de Carnaval, o Clube Lenhadores enche a Avenida Dantas Barreto de cor e alegria, desfilando entre os bairros de Santo Antônio e São José, no centro do Recife. Suas cores são verde, vermelho e branco. E seu estandarte ostenta orgulhosamente mais de 120 anos de história e resistência.
MARIA CLETA CAMELO DE SOUZA: O estandarte vai para a rua. As cores do clube são vermelho, branco e verde. O clube desfila por alas: a ala das passistas, a ala da diretoria. Tem o porta-estandarte, figurantes assim, pessoas que a gente chama de fora para desfilar, com as roupas bem mais alinhadas.
LOCUTORA (Cris Xavier): Dona Cleta, além das apresentações e movimentações do Carnaval, quais as outras atividades que o clube realiza ao longo do ano?
MARIA CLETA CAMELO DE SOUZA: “A festa que temos aqui na sexta-feira, ‘Revivendo o Passado’, são músicas de brega e outros tipos de música com o DJ. No sábado é tipo brega também com o DJ e, no domingo, aqui a ‘Boa Idade’, que começa das 17 horas e vai até as 21 horas. E das 21 até 1 hora da
manhã, música também tipo brega, com DJ também. Vários tipos de música. Tem a ‘Festa das Rosas’, que é em maio. Tem uma festa com todo mundo de rosa, porque nós temos o ‘Baile da Serpentina’, que é 15 dias antes do Carnaval. O ‘Baile da Serpentina’ é carnavalesco. São músicas carnavalescas, orquestra que vai tocar só sobre Carnaval. Tudo é Carnaval.
LOCUTORA (Cris Xavier): E além dessas festas, temos também a Matinê Branca, uma festa que nasceu há mais de 100 anos na sede do Clube Lenhadores como uma resposta aos bailes pagos da elite pernambucana. Enquanto os ricos e brancos desfrutavam de suas festas, o Clube Lenhadores decidiu criar um evento gratuito para os trabalhadores humildes e suas famílias.
Para os cavalheiros, o traje é terno branco, camisa branca de mangas longas e meias brancas, com gravata borboleta, sapatos e cintos pretos. Para as damas, vestido ou saia e blusa abaixo do joelho ou longas, na cor branca, com bolsa e sapatos pretos. E até hoje, quem não estiver de acordo com as vestimentas nem entra.
MARIA CLETA CAMELO DE SOUZA: Eu quero ver se eu coloco ele no Livro dos Recordes, que a Matinê Branca é a única no mundo. Uma revolta quando o clube foi criado: como tinha só matinê branca, os negros não podiam entrar. Então, os negros resolveram fazer uma festa que não era… o nome não era Matinê Branca, certo? Por isso que ela tem menos tempo do que a criação do clube. Então eles resolveram criar a Matinê Branca com todo mundo de branco. Podia entrar branco, preto, qualquer cor. Estando todo de branco, fazendo a formalidade normal que era exigida na festa, podia entrar.
Quando eu vi aquelas pessoas já de bem idade aqui dançando, curtindo, e outros negros velhinhos, já encolhidinhos, todos de branco… quando você via gravata borboleta preta, cinto preto, sapato preto, tudo alinhado, alinhado… lindo, lindo! Me emocionou incrivelmente.
LOCUTORA (Cris Xavier): Eita que esse clube é cheio de histórias e de momentos marcantes. E como a senhora vê a importância dos clubes carnavalescos para a nossa cultura?
MARIA CLETA CAMELO DE SOUZA: Aqui na Mustardinha nós temos sete clubes; não é brincadeira isso aqui. Aqui, minha gente, é uma riqueza muito grande; é cultura, cultura popular. Eu acho que a cultura está perdendo muito pela falta de amor à cultura, à nossa cultura. O recifense precisa aprender a amar a sua música, que é o frevo. Nós não temos isso, o amor pelo frevo. Você não tem mais concurso de frevo.
Desde que eu entrei aqui que eu tento ver se fazem um concurso para se ter uma música nova, um frevo novo para o Clube Lenhadores. E até agora eu não consegui. Porque nós temos que investir em cultura. Nós temos que mostrar a nossa cultura. Eu fui criança assistindo Pitombeira dos Quatro Cantos, Elefante… eu era criança. E eu ia; papai não perdia um. Era Dona Santa, que
ficava ali — nunca esqueço — na Pracinha do Diário, todo ano. Dona Santa já bem velhinha… e a gente não perdia.
Porque papai adormeceu, mas eu aprendi a gostar da cultura, do nosso Carnaval, do nosso frevo, através da minha família. Porque a gente não perdia o Passo, a gente não perdia essas coisas que não se têm mais; acabou. E não só os Lenhadores, mas todos os clubes carnavalescos representam muito na nossa cultura, a cultura do nosso estado. E se o poder público visse isso e desse mais… o dinheiro que eles hoje dão não dá para nada, porque a gente paga tudo, absolutamente tudo. Então, eu acho que deveria ser visto como um orgulho, como a gente vê em outros estados.
LOCUTORA (Cris Xavier): O Lenhadores é mais do que um clube; é uma celebração da história e dos valores do povo recifense, trazendo sempre a alegria do Carnaval para as ruas.
E não percam os próximos episódios para conhecer outros grupos que também fizeram e fazem o nosso coração pulsar de amor pela cultura pernambucana.
