LOCUTORA (Cris Xavier): Embalados pelo ritmo do coco, vamos conhecer toda a potência do grupo Coco de Quinta. Em 2020, no bairro da Várzea, um grupo talentoso de amigos surgiu com a missão de celebrar a alegre brincadeira do coco. Com muita energia, eles decidiram homenagear os mestres e mestras dessa cultura popular tão rica.
Desde 2021, sempre nas quintas-feiras, a Praça da Várzea se enche de vida com o Coco de Quinta, que já se tornou um evento querido e famoso na comunidade. Com seus movimentos e ritmos, eles mostram a diversidade e a beleza do coco em todas as suas formas e estilos, transformando cada presente…
ALESSANDRO: Meu nome é Anax — quer dizer, meu apelido, né? Meu nome é Alessandro. No Coco de Quinta, tanto eu organizo as brincadeiras — que a gente chama de brincadeira, que são as sambadas mensais — como também eu toco e canto. Eu toco mineiro ou ganzá, que é o instrumento de chacoalho; maraca, que é outro instrumento de chacoalho; e apito e baje, que é um tipo de reco-reco, da Zona da Mata. E canta:
“Na praia choveu e não molhou o chão. Na praia choveu e não molhou o chão. Na praia choveu e não molhou o chão. Na praia choveu e não molhou o chão. Na praia choveu e não molhou o chão. Na praia choveu e não molhou o chão. Eu acordei. Na praia a menina já até se matou, na praia já mordeu’. Eu falei: ‘Na praia a menina já até se matou, na praia já mordeu. Na praia a menina já até se matou, na praia já mordeu’. Eu falei: ‘Na praia a menina já até se matou, na praia já mordeu.”
Coco de Quinta vem desse encontro, né, de amigos e amigas que já se encontravam, se cruzavam em outros lugares, em outras sambadas de coco, na universidade, aqui no bairro da Várzea mesmo; e daí, no período pré- pandêmico, a gente decidiu se juntar para brincar, né, para tocar, para tentar criar algo, já que a maioria são músicos antes de serem qualquer outra coisa, todo mundo já tem uma relação musical.
E daí veio. A gente começou a se encontrar na praça, veio a pandemia, a gente parou. Quando teve a flexibilização da pandemia, a gente começou a tocar; por acaso era nas quintas-feiras. A gente não era tão bom, então ‘coco de quinta categoria’, daí Coco de Quinta. O coco é fundado oficialmente em janeiro de 2020. Agora, não oficialmente, desde 2019, desde agosto de 2019.
O Coco de Quinta acho que é esse exemplo do fenômeno de vir, de você reunir 500, 600 pessoas numa praça atualmente, que a gente reúne. Vem gente de Igarassu, do Cabo, de Olinda, de Paulista, de não sei de onde, da Zona da Mata, para quê? Por uma quinta-feira à noite; de 8 horas da noite começa. É um fenômeno estranho. Então eu acho que a pandemia, por aquele momento ali de o pessoal não ter muita opção, o Coco de Quinta foi uma opção, que nem tudo abriu logo.
Então a gente tocava em 2020; final de 2021 a gente começou a fazer a sambada mais regularmente, então era pouca coisa que tinha na cidade. E aí esses lugares de terreiro, de brincadeira de quintal, de coco assim, foi o que salvou, vamos dizer, o pessoal também. Eu acho que o que faz ser original não tem a ver muito com a questão musical ou modalidade de coco. É mais por a gente ser jovem e atrair muito jovem.
É mais pela coletividade de muita gente se identificar com a forma como a gente faz. Porque tem essa relação também de o coco estar… das pessoas entenderem o coco como uma coisa muito mais de velho, de pessoa mais adulta. E aqui na praça o fenômeno do Coco de Quinta é por isso, é porque vêm mais pessoas novas; tanto vem pessoal da comunidade da periferia, da própria Várzea, como vem gente de várias cidades, de Olinda.
Então acho que, pela brincadeira ser convidativa, irreverente e ser um espaço também aberto para o pessoal recitar, também vir cantar, é isso. Enquanto linguagem de coco nem tanto, a gente toca parecido com muita gente. Claro, a gente tem a nossa própria forma, né? Criou uma identidade própria. A gente é muito diferente, mas ao mesmo tempo cada um tem a sua forma que faz ser única.
LOCUTORA (Cris Xavier): Anax, como é para vocês tocar e brincar o coco, que é um ritmo tão cheio de força e que existe há muitos e muitos anos?
ALESSANDRO: É desafiador e às vezes até cansativo, porque por ser tradição… tradição a gente já sabe, né? Algo que carrega uma, vamos chamar assim, uma alma. Então não existe tradição que você queira inventar do nada. A gente só está continuando, tentando fazer um movimento de resistência de rua, né? Então a gente não faz uma sambada tradicional de coco. Porque a sambada tradicional ela não se cria assim, ela nasce dentro de uma família, de um quilombo, de uma aldeia, de um terreiro.
Aí o desafio é esse: é tanto a gente ser aceito, entre aspas, ou respeitado pelos mais antigos e, ao mesmo tempo, fazer com que o pessoal novo, a garotada, também respeite e entenda que o coco tem uma tradição que não é de qualquer jeito, não é uma festa de… não é um ‘rolê’, que nem o pessoal jovem chama. O coco é um compromisso ancestral, social, cultural, político até. A compreensão que se tem, ela é vasta.
Porque toda tradição e toda brincadeira é um lugar de jogo, e todo lugar de jogo é um lugar de aprendizado. Eu gosto de falar que o jogo e a brincadeira são anteriores à cultura. Então, antes de existir o sistema cultural, uma organização social, já existia brincadeira; os animais no geral brincam, mesmo sem ter um sistema cultural como o nosso. Então acho que é importante para o aprendizado o jogo, a brincadeira.
O coco também é uma brincadeira; então na brincadeira você se identifica, você vê a diferença, você conhece a repetição, a disciplina, o respeito também. Então acho que a poesia. O lugar da literatura e da história também. Que o coco, de algum modo, é sobre… ele é um ritmo do trabalho, é um ritmo do
cotidiano. Então, o coco é uma forma de conhecimento e ciência da tradição oral.
Então, é super importante estar integrado, dialogando com a escola, com todas as formas de aprendizado de ensino, né? Tradição e conhecimento formal.
Aí a pracinha, ela tem importância por quê? Porque a gente já tentou — isso é curioso — a gente já tentou fazer o Coco de Quinta na Rua da Feira, mas a gente não teve tanta acolhida.
E aí, para a gente não sentir que o pessoal não acolheu, a gente foi para a Praça Pequena. Por que a gente também não fez na Praça Grande? Porque já tinha muita coisa: maracatu, tinha o pessoal do break, tinha o pessoal do circo, tinha o pessoal do rap, enfim, muita coisa. Aí, vamos ocupar a Praça Pequena, porque lá também tem os amigos da gente comerciantes. E, além disso, uma praça que estava meio que abandonada. Apesar de ela ser tombada, ela é largada.
Aí, a gente foi para um lugar que parecia que era o nosso lugar mesmo. Porque a gente aqui tem o primeiro, o cara que começou, que é também um dos fundadores da Burra da Várzea, Mestre Dida. Então eles… ele vem dessa cultura da tradição do coco de sala — coco de sala, coco de salão — que é um coco que vem da senzala, né, que vem desse lugar aí do escravizado.
O pessoal não tinha para onde ir, tinha que fazer dentro da sala ali, batendo massapê. E aí sempre é um peso, porque vem Mestre Dida, aí vem Mestre Fernandão, aí vêm os meninos do Chapéu de Couro, Luz do Candeeiro, Coco de Capoeira, Coco Raiz do Capibaribe, Flor de Mulungu, Boi da Mata… então, a gente também nunca teve essa ambição de dizer assim, a pretensão de: ‘Não, a gente vai ser isso e aquilo’.
A gente só estava brincando; a gente diz que é uma brincadeira ‘a vera’, mas é uma brincadeira ainda. Então, sempre foi muito, algo sensível. Porque a gente ficava cauteloso, ia ali no lugar de reconhecê-los e respeitá-los e até trazer. Tanto é que a maioria deles já tocou com a gente, já brincou lá.
Eles gostam, reconhecem, então é um lugar de muito compromisso, de muita responsabilidade de manter, para dentro dessa tradição aí e desse lugar de brincadeira nesse bairro que é muito antigo. A Várzea é um bairro de… a gente pode dizer que tem mais de 300 anos, se for pelo registro. Eu mesmo já li passagem aqui de historiador holandês datada de 1644, e ele já fala da freguesia da Várzea do Capibaribe, do melhor lugar de se morar.
É o melhor cantinho desde aquela época; a Várzea já foi capital, da capitania de Pernambuco por 9 anos. Então, a gente está num lugar de muita história, muita carga, muito peso. Então é um desafio, é muita responsabilidade, mas é muito bom também, porque eu acho que é o melhor lugar para estar se fazendo isso.
LOCUTORA (Cris Xavier): O Coco de Quinta é um grupo que mistura diversão de rua e resistência. Com muita alegria, eles cantam suas próprias músicas e também dão vida às canções de vários coquistas e artistas do coco, espalhando cultura e animação por onde passam.
ALESSANDRO: Não sou coquista, eu digo logo que eu não sou coquista, porque o coquista é aquele que aprende as métricas, as formas do coco, e ele peleja, ele faz desafio, seja embolada, o coco de roda, o coco de sala, nas feiras, nas sambadas com outros mestres.
Aí o mestre reconhece outro mestre e diz: ‘Não, ele é coquista’. Eu digo que eu sou cantador, brincante e intérprete de coco. Aí nesse caso as letras que eu faço, eu busco respeitar isso também: que tipo de métrica é essa? Então, tem uma métrica, tem estilo; a gente tem influência de vários lugares. Então, quando eu estou fazendo uma música, às vezes eu pego só a melodia, vem na minha mente uma melodia, daí eu pego o pandeiro e escrevo uma letra em cima, alguma história.
Tem música da gente que a gente nem imagina assim, mas tem uma galera aí nova de 16, 17 anos que canta.
Eu acho que o verde e o branco é o que mais está ligado à identidade do grupo. Por exemplo, a gente — como é um grupo muito novo e a gente gosta de dizer que a gente é mais uma brincadeira do que um grupo, que o grupo ele virou uma necessidade… então, a gente ainda está se organizando enquanto esse lugar profissional.
Vai se consolidar mais ainda, com a construção de figurinos mais… mas a gente foca sempre nisso. Então, a gente se veste para se apresentar ou todo de branco ou então a gente tem essa característica aqui do floral, da camisa de botão floral, ou de chita. Mas geralmente as cores são estas: verde e branco, que estão ligadas também à madrinha do povo da gente, que é Mestra Paulina.
Continuar a brincadeira e a resistência, a tradição, porque além de brincadeira ancestral e de tradição de coco é também arte de rua, né? Então, acho que o foco é esse: fazer que a brincadeira cada vez mais melhore, acolha e respire junto com o bairro da Várzea aí, né? Esse bairro tão forte.
LOCUTORA (Cris Xavier): E assim, a brincadeira do coco continua viva, a encantar corações e a trazer sorrisos. O ritmo é contagiante e os movimentos são cheios de vida. Quando vemos o Coco de Quinta, entendemos que é mais do que uma dança: é uma celebração de resistência e identidade. Que as nossas tradições continuem a brilhar e a unir pessoas, espalhando alegria e mantendo viva a essência da nossa história.
Até o próximo episódio, e que a cultura nunca pare!
