LOCUTORA (Cris Xavier): Foi daqui que pediram tradição e amor? Porque no episódio de hoje conversaremos com o Bloco Carnavalesco Misto Pierrot de São José. O bloco Pierrot de São José é uma entidade cultural e carnavalesca superencantada pelo Carnaval.
Os apaixonados carnavalescos Servy Caminha, seus familiares e amigos do bairro de São José se uniram pelo desejo de celebrar e preservar a tradição carnavalesca do bairro, que é o coração do Carnaval recifense, e deram vida a essa agremiação. Com o passar do tempo, o amor pela cultura do Carnaval só aumentou, transformando o bloco em um ícone de grande valor cultural.
Todo esse carinho e dedicação renderam ao Pierrot de São José o título de primeira agremiação de frevo reconhecida como Patrimônio Cultural do Recife.
MARIA GORETTI CAMINHA: Eu me chamo Maria Goretti Caminha, sou a filha mais velha da carnavalesca, Comendadora do Frevo, Servy Caminha, fundadora do bloco Pierrot de São José.
Estamos hoje aqui caminhando com a trajetória do bloco, herança maior que nossa mãe nos deixou. O bloco foi fundado no dia 13 de outubro de 1978. A minha mãe, ela trabalhou no Rio de Janeiro numa companhia de teatro e, nessa companhia de teatro, estava sendo exibida uma peça sobre a Commedia Dell’arte.
E ela achou aquilo muito bonito, muito interessante, e ficou com aquele sentimento de nostalgia, de alegria, de pertencimento naquela trilogia. Aquele espetáculo maravilhoso. E ela guardou isso, e ela sempre teve um desejo muito grande de fundar um bloco.
Ela trabalhou durante muitos anos para vários blocos tradicionais do Recife: Baianistas do Pina, Madeira do Rosário, o próprio Batutas de São José, onde ela aprendeu a profissão de artesã, de costureira. Ela tinha, na época, 9 anos de idade. Então, ela explorando o ambiente do bairro do Terço, ela foi bater onde era a sede do bloco Batutas de São José.
Conheceu então o presidente do bloco, que era na época Augusto Bandeira, e ele achou interessante aquela menina olhando curiosa por aqueles brilhos, aquelas coisas. Aí ele perguntou a ela: ‘Você quer costurar? Você quer saber? Você quer aprender?’. Aí ela olhou para ele, balançou a cabeça. “Sim, eu quero.” Ele foi falar com meus avós e pediu autorização para ela aprender.
E, por esse simples ato, a vida da minha mãe se transformou num grande legado de amor e de paixão pelo Carnaval do Recife. Ah, minha mãe foi uma visionária, minha mãe foi uma guerreira, minha mãe entrou no universo de figurinistas onde só existiam homens; ela entrou nesse espaço e mandou ver.
Ela era uma visionária, ela tinha uma visão de tudo que era diferente, porque ela queria ser sempre a primeira em tudo. Então, ela tinha essa coisa de
sempre estar fazendo coisas novas. Apesar de não ter conseguido concluir uma faculdade, a minha mãe tinha uma sapiência, era de uma ciência de cultura… e tanto é que ela é reconhecida como Comendadora do Frevo.
LOCUTORA (Cris Xavier): Goretti, como você iniciou no Carnaval?
MARIA GORETTI CAMINHA: Eu desfilei a primeira vez na barriga da minha mãe. No outro Carnaval, com 8 meses de idade, eu já estava dentro do Batutas de São José, nos braços da presidência, da querida amiga da minha mãe, Edilice Gomes, desfilando de vedete. Então, eu costumo dizer que eu sou carnavalesca da barriga da minha mãe.
Mas antigamente a gente tinha a premissa de ter crianças nos blocos. Hoje não existe mais essa prática, apesar de que os blocos líricos estão vendo hoje a necessidade de colocar crianças. Por quê? Porque a criança é o futuro. Eu preciso passar meu posto de costureira, de bordadeira, de coordenadora para alguém.
Eu tenho a minha descendência, mas a minha descendência ainda é pouca para poder dar continuidade ao bloco. Vai chegar um momento em que eu não vou poder mais ter essa habilidade de tudo isso. Aqui, no Pierrot de São José, nós tínhamos uma leva de crianças.
Crianças essas que hoje são homens e mulheres casados, com filhos. Existe um projeto nosso que é a idealização de um grupo pequeno de crianças onde a gente possa dar apoio educacional e a contrapartida deles seria aprender o que é cultura — não só o que é o bloco, mas a cultura no geral — e também no Carnaval eles se divertirem com a gente.
Mas a cultura, eu acho que cultura e educação são a chama, são as verdadeiras fontes de energia para que a gente não deixe a cultura morrer. Seja ela no bloco, seja ela no frevo, no passo. É uma grande força para que a gente consiga trazer as crianças para dentro da realidade, do que é a vivência das cantigas de roda, das grandes brincadeiras de amarelinha, da cultura, do que é brincar de boi, do que é brincar de bloco, do que é fazer um passo, a importância do frevo na vida do pernambucano.
Tudo isso é muito rico, mas precisa que a gente chegue nas escolas para as crianças entenderem as diferenças. Então, a gente precisa realmente dar uma renovada nessa questão das crianças, porque a criança é o futuro.
LOCUTORA (Cris Xavier): Desde a sua fundação, o Bloco Pierrot de São José sempre foi um espaço acolhedor; inclusivo, aqui acolhem a todos, não importa cor, raça, religião ou orientação sexual. Quem quiser se juntar à folia é sempre bem-vindo. No Pierrot de São José, a diversidade é celebrada com alegria e respeito, tornando cada Carnaval ainda mais especial. O que é o Carnaval?
MARIA GORETTI CAMINHA: Carnaval é aquele momento em que a gente se desprende de nossas amarras e vamos viver a ilusão de ser rei, rainha, príncipe, princesa, ou simplesmente botar uma camisa e sair por aí e ser feliz.
Porque o sonho de uma criança, quando veste um palhaço, o sorriso dela é único. Uma pessoa quando veste uma fantasia de rei e de rainha, é a própria rainha.
Tradicionalmente os blocos líricos de hoje têm uma outra característica, mas os blocos antigos, os blocos tradicionais — Madeira, Baianistas, Flor da Lira do Recife — eles têm aquela característica do colorido, das cores para chamar bem a atenção, das plumas, dos paetês. Isso é uma característica de quando foi fundado, de 1920 para cá, entendeu? Já hoje os blocos líricos são totalmente diferentes. Eles têm as suas cores.
No caso do Pierrot de São José, as cores do Pierrot são preto e prata. Nós temos a premissa de não usar uma cor só. A gente só usa as cores do bloco quando a gente faz 20, 15, 25 anos. Usamos o preto e branco nos 45 e só vamos usar preto e branco novamente agora no 50. E durante esse intervalo a gente vai colorido. É também para dar uma mesclada, para ficar bem diversificado. É muito relativo, depende do dia, da ocasião, mas no Carnaval em si são de 80 a 100 pessoas. O grupo era bem maior, mas agora com a idade a gente está dando uma reduzida.
A gente está tentando conciliar mais, porque a gente tem que ter muito planejamento. Tem que ter muita coisa para dar certo, principalmente porque a gente tem uma despesa muito grande, porque nós somos um bloco social. Nós somos um bloco onde a gente não vende fantasia; a gente tem uma contrapartida social em que a gente oferece as fantasias, e as pessoas oferecem para a gente as apresentações, e com essas apresentações a gente consegue colocar o bloco na rua.
Mas o nosso grupo é um grupo muito fiel, de muitas pessoas voluntárias, de muitos amores de vários anos. Mas a gente está construindo parceria com outros grupos, e é justamente porque a gente quer que as pessoas que venham para cá se sintam felizes. Não adianta você vir para cá… a gente aqui é uma casa de mãe. Mas que a pessoa se sinta à vontade, que a pessoa seja feliz. E Carnaval é isso: felicidade. É você estar feliz, é você fazer alguém feliz. Esse é o nosso objetivo.
LOCUTORA (Cris Xavier): Patrimônio Cultural do Recife. O que esse título significa para vocês?
MARIA GORETTI CAMINHA: Ser Patrimônio Vivo do Recife significou para nós, do Pierrot de São José, a continuidade. Porque a minha mãe era quem bancava o Pierrot. Ela tinha o salário dela, o salário do trabalho dela, e do salário do trabalho dela ela vinha bancando. Quando faltavam as coisas, ela comprava; quando queria comprar material, ela tirava do dinheiro dela. E quando ela faleceu, perdemos tudo.
Ser Patrimônio hoje significou a continuidade, porque se nós não tivéssemos hoje a bolsa que nos ajuda — que é uma bolsa, não é uma bolsa grande, mas ela ajuda a comprar um material, ajuda a pagar um imposto, ajuda a pagar uma luz e ajuda a comprar material — e a gente vai fazendo do jeito que a gente
pode. E estamos na busca de conseguirmos chegar aos 50 anos com nossa sede aberta, com nossos cursos profissionalizantes. Aqui nesse terreiro onde foi a nossa semente, a gente quer ver crescer. É muito bom ter o que falar do Pierrot de São José.
LOCUTORA (Cris Xavier): No início, o bloco Pierrot de São José era apenas uma divertida brincadeira cultural. Com o tempo, ele passou a participar e realizar projetos sociais e culturais, transformando adolescentes em profissionais talentosos. Esse lado educacional cresceu e floresceu, apesar das dificuldades financeiras. Mesmo com os recursos limitados, a missão do Pierrot de São José é clara: “É do Carna-Arte”, pois a cultura é essencial para a evolução de cada indivíduo.
MARIA GORETTI CAMINHA: E uma das coisas de que eu me lembro muito interessante é que as palavras dela soam nos ouvidos da gente sempre, sempre, sempre: os ensinamentos, as dicas, as formas de ser, de agregar, de receber as pessoas. E a gente tenta ainda hoje dar continuidade a tudo aquilo que ela deixou. Esse é o grande legado da minha mãe: chegou aqui, aprende; chegou aqui, sai profissional. Não tenho medo de ensinar tudo que eu sei a ninguém, porque isso é dar continuidade aos saberes.
LOCUTORA (Cris Xavier): Falar do Pierrot de São José é sempre emocionante. Nos fale mais sobre algumas lembranças e coisas interessantes pelas quais o grupo já passou.
MARIA GORETTI CAMINHA: É, outra história bem interessante do Pierrot… O grande compositor do Pierrot de São José se chama Lírio de Moraes, o pai do nosso querido André Rio. E ele era um poeta. Então, ele tem passagens, músicas belíssimas. São ‘mais de mil pierrots em São José’, dedicada as canções… é uma das músicas dele. Ele tem várias músicas: ‘Vejo os pierrots lindos, eternos, suaves, e as colombinas’. Então, assim, ele tinha uma delicadeza, porque ele também amava o bairro de São José. Então, ele ligou o Pierrot, que era da amiga de infância dele, ao bairro de São José e ao amor que ele sentiu pelo bairro de São José. Minha mãe amava esse lugar.
LOCUTORA (Cris Xavier): E qual o desejo do bloco para o futuro?
MARIA GORETTI CAMINHA: Olha, o Pierrot de São José, enquanto Patrimônio Vivo do Recife, tem o objetivo de fazer com que outras agremiações também sejam Patrimônio Vivo, porque isso é uma coisa importante, esse apoio. A gente precisa que as pessoas aprendam a se autossustentar sem precisar estar só com a prefeitura, com as apresentações.
Esse é um dos nossos projetos, e eu quero lutar pela escola, né, a escola do bloco. Eu quero ter crianças, eu quero ter velhinhos, que a gente já teve todos esses projetos aqui, mas no momento nós estamos com a casa em reforma. E tenho fé em Deus de a gente conseguir abrir a nossa sede.
LOCUTORA (Cris Xavier): O Bloco Carnavalesco Misto Pierrot de São José está sempre presente nos ciclos culturais, mantendo o legado de Servy
