EP 01 – BLOCO DA SAUDADE

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EP 01 – BLOCO DA SAUDADE

LOCUTORA (Cris Xavier): Sejam bem-vindos ao mundo dos blocos carnavalescos, onde a diversão não tem fim e a alegria contagia todos os corações. Faremos uma série de vídeos onde vamos explorar a magia dos blocos carnavalescos e onde a música, as danças e as fantasias se encontram em uma festa única e colorida.

Vamos conhecer os ritmos mais envolventes, as coreografias mais animadas e descobrir como cada bloco, troça e grupo tem sua própria identidade e história. No ritmo carnavalesco, a imaginação voa alto e a diversão é garantida. É um verdadeiro carnaval de risos e brincadeiras para todas as idades.

Então, vamos juntos mergulhar nessa festa cheia de energia e alegria, onde cada passo é uma dança e cada sorriso é uma celebração. Preparem-se para se divertir.

E, no nosso primeiro episódio, teremos o Bloco da Saudade. Falaremos hoje com Isabel Bezerra. Ela, que tem 72 anos e nasceu na cidade de Rosário, lá no Maranhão, mas mora há muito tempo aqui em Pernambuco. Dona Isabel, fale um pouco aqui para a gente sobre a sua infância e sobre a sua trajetória até chegar no bloco.

ISABEL BEZERRA: Foi uma infância que eu andei de bicicleta, fiz o que eu deveria fazer, brinquei à vontade. Todas as brincadeiras de época, né? Que hoje em dia fazem falta. A gente sente que os nossos netos, as crianças de hoje em dia, precisam dessas brincadeiras. E meu pai foi transferido para cá; ele era funcionário do Banco do Brasil e foi transferido para cá. Começamos a nos entrosar com Pernambuco e com a nossa cultura.

Eu sou casada, sou aposentada da Universidade Federal de Pernambuco, bibliotecária, tenho dois filhos, não tenho netos, mas tenho muitos sobrinhos. Procuro conversar com eles para curtir o que é bom para a nossa infância, que seriam as brincadeiras, né? E não ficar em celular; brincar e curtir sua fase, né? Cada um na sua fase. Eu me casei com pernambucano. Aí fui conhecendo as nossas raízes. Lá no Maranhão tem também alguma coisa da nossa cultura. Então, acho que isso vem no sangue da pessoa.

Fui conhecendo o carnaval e, em 1977, eu entrei no Bloco da Saudade a convite de um amigo nosso. Ele nos convidou e nós nos encantamos pelo

bloco. Eu entrei como componente. Era uma coisa muito informal e aí fui gostando, me interessando, me incorporando com aquela cultura maravilhosa do Frevo de Bloco.

LOCUTORA (Cris Xavier): No vibrante cenário do Carnaval de Recife, surgiu o Bloco da Saudade, uma efusão de tradição e nostalgia. O bloco nasceu em 1974, ainda muito simples, com pessoas simples, de forma simples e simplesmente ficou. Sua história é tecida nos laços de amizade entre apaixonados pela cultura e pela arte que embala a alma pernambucana. Decidiram erguer uma alegre homenagem entre notas e versos, onde o passado foi eternizado em cada acorde.

Hoje, realizam de forma única uma reverência aos mestres que agora são estrelas na constelação da música local. Os foliões imortais encontram morada na saudade que atravessa as ruas de Recife.

ISABEL BEZERRA: Era bastante informal, um grupo de amigos que amava o carnaval e gostava de brincar; uma maneira da gente ir para as ruas brincar o carnaval em Recife e Olinda. Nós que elaborávamos nossas fantasias, e a fantasia, quando chegava o terceiro dia de carnaval, despencava porque era a gente mesmo que fazia. Então, tudo era feito por nós, executado pelos componentes.

Edgar Moraes foi o nosso criador com a inspiração da música Valores do Passado, que ele compôs em 1962. Onde ele, em 1962, já via que os blocos estavam extintos. Ele, nessa música, fala de 24 blocos extintos e que um dia gostaria que o Bloco da Saudade — ele fala no Bloco da Saudade: “assim recorda tudo que passou”. Aí ele foi o primeiro que colocou “Bloco da Saudade”. Teve aquela inspiração de existir um Bloco da Saudade para que esses 24 blocos que foram extintos… vamos ver se ressurgiam os blocos nas ruas.

Agora, só em 1974, numa conversa de Marcelo Varela e Zeca Madureira com Edgar Moraes, foi que Edgar Moraes, falando da sua vontade de existir o Bloco da Saudade, então esses dois rapazes colocaram o Bloco da Saudade em 74 na rua. Com poucos componentes, não tinha fantasia, era mais só a camiseta e o short. Foram na casa de Edgar Moraes no dia 24 de fevereiro de 1974, que foi o primeiro ano em que o bloco saiu e que Edgar Moraes ainda pôde ver o Bloco da Saudade e ficou com muito orgulho da existência.

Nós continuamos a trajetória. O nosso amor ao bloco, os componentes, a direção… todas as diretoras são mulheres e todas têm muito amor ao bloco. Isso é o que faz com que, eu acho, o nosso sucesso se desenvolva, porque todos trabalham por amor à cultura.

LOCUTORA (Cris Xavier): Ah, gente, que início maravilhoso. Mas, Dona Isabel, nos diga uma coisa: como surgiram as cores, os símbolos e as referências do bloco?

ISABEL BEZERRA: Em 1980, Zeca Madureira foi transferido para João Pessoa, aliás, Campina Grande. E o bloco não ia sair, então nós ficamos desesperados. Então pedimos a ele: ‘Ô Zeca, você quer que a gente dê continuidade?’. A única relíquia que existia era o abre-alas. Então ele nos cedeu o abre-alas e nós continuamos essa trajetória. Aí, desde 80, eu estou à frente, sempre com aquela equipe, dando andamento a tudo.

O abre-alas ou flabelo é aquele distintivo, é a nossa marca. A marca do Bloco da Saudade está aqui: a lágrima, né? Uma grande máscara que foi idealizada pelo nosso fundador Zeca Madureira. E as nossas cores também, que são o encarnado e o azul do nosso pastoril. Vem da nossa cultura popular. Então a gente vem também evoluindo na parte musical. A gente faz muita pesquisa em músicas que cabem bem como um ritmo de frevo de bloco. Nosso maestro Bozó tem feito grandes arranjos e músicas novas também, incentivando os compositores de frevo de bloco. E a nossa dança também, o canto, a orquestra de pau e corda e as evoluções e cantando as belas músicas.

LOCUTORA (Cris Xavier): O Bloco da Saudade é mais do que um desfile; é uma celebração da vida e da arte. É um canto aos que estão e aos que partiram e cujas vozes ecoam nos corações dos foliões que se vestem de alegria e dançam ao ritmo das memórias. Todos podem brincar e são chamados a também amarem o Carnaval com todo o coração.

ISABEL BEZERRA: Ele é formado por 150 pessoas: 30 músicos e componentes. São mais mulheres; tem o coro feminino, são 90 mulheres e 27 homens. Desde a criança de colo até quando aguentar. O mais velho tem 90 anos. Já é a tradição que a gente tem, Bárbara mesmo, a nossa flabelista, sai desde os 3 anos de idade conosco. As avós componentes, as mães que incentivam, educando os filhos e levando a nossa cultura.

Recebemos o título de Patrimônio Imaterial do Estado de Pernambuco. Recebemos a homenagem da Câmara de Olinda, da Câmara do Recife também e várias outras homenagens que nos incentivam a continuar.

LOCUTORA (Cris Xavier): Ao som das antigas melodias, o Bloco da Saudade serpenteia pelas ruas do Recife no auge do carnaval. Um ajuntado de gente, cores e risos em trajes festivos e de época. Um encontro mágico, onde milhares de foliões se deparam com a dança de lembranças ao ritmo das músicas que atravessam gerações. As ruas se tornam um palco de encantamento, onde moradores locais e viajantes curiosos se unem pelo fascínio das tradições carnavalescas e encontram no bloco um caminho guiado pelas entusiasmadas canções.

ISABEL BEZERRA: Um momento também assim interessante e marcante para nós é a nossa saída da Rua da Imperatriz, toda segunda-feira de Carnaval. A gente concentra às 16 horas na Praça Maciel Pinheiro e sai do início da Imperatriz. Então é uma apoteose, porque é a nossa primeira saída em Recife. Porque nós saímos no domingo em Olinda, na segunda e terça em Recife.

E a segunda-feira é um momento marcante do Carnaval para os que fazem os blocos, porque a gente sai da Rua da Imperatriz e vai para o Marco Zero, onde há o encontro de blocos, onde todos os blocos se apresentam no Marco Zero, uma confraternização bonita entre os blocos.

E para nós, o Bloco da Saudade, que iniciamos em 74, não tinha Carnaval com blocos nas ruas; isso para nós é muito gratificante, porque depois do Bloco da Saudade em 74, então tem mais de 40 blocos agora para compartilhar essa festa carnavalesca de cultura, de cores, de alegria. Hoje, a gente leva uma multidão que a gente fala de “os perseguidores”, os perseguidores da cultura pernambucana, do que é bom, né?

LOCUTORA (Cris Xavier): Dona Isabel, como a senhora disse, o Bloco da Saudade une pessoas de todos os locais e de todas as idades. E quem está por trás de toda essa organização?

ISABEL BEZERRA: A fantasia, as músicas que escolhemos, porque a gente escolhe também para o tema algumas músicas concernentes ao tema, né? Então, é o nosso maestro. Ele faz os arranjos. Nos preocupamos tanto com a parte musical, como com a parte da indumentária. A gente se preocupa para o pessoal que está no bloco cantar. Cantar para oferecer o melhor.

Nós temos a equipe de costureiras. O nosso flabelo, ele é todo bordado em lantejoulas. Isso é feito à mão. Então, é uma das nossas diretoras, Rosa Vasconcelos; como nós éramos só no Veludo, ela disse: “não, eu vou bordar”. Até hoje, ela que borda o nosso flabelo. O figurinista Paulo Carvalho e o nosso carnavalesco Lucas Correa, que é um jovem com todo o vigor, que é também nosso decorador. Eu digo que é o Professor Pardal.

LOCUTORA (Cris Xavier): Sobre o manto da saudade, o bloco utiliza um repertório que é como um baú de memórias, repleto de frevos antigos e marchinhas de Carnaval que contam histórias de felicidade e de amores achados e perdidos. As esquinas das ruas em que o Bloco da Saudade passa se tornam um altar de homenagens aos sonhos que atravessam o tempo, onde os grandes mestres da música local são reverenciados: Capiba, Nelson Ferreira, Alceu Valença, Claudionor Germano e outros seresteiros da alma pernambucana.

Nesse cenário do Carnaval recifense, o bloco se entrelaça com outras manifestações culturais como o Galo da Madrugada ou o Homem da Meia- Noite, por exemplo. É a celebração da riqueza musical e do legado artístico, um testemunho vivo da esperança que se renova a cada batida do coração da cidade.

ISABEL BEZERRA: Nós temos a orquestra formada pelo maestro Bozó, onde existem aqueles músicos que fazem parte da orquestra do Bloco da Saudade. Compositores também se agregam, no caso Getúlio Cavalcanti, Maurício Cavalcanti, Eli Madureira, que são compositores recentes, né? Humberto Vieira, Heleno Ramalho, J. Michiles, tem Fátima Castro… são vários que se

agregam a nós, nos trazem composições e o maestro faz aqueles arranjos maravilhosos.

E a gente ensaia, tem o coral, onde nós trabalhamos, tem a equipe do coral e o nosso professor do coral; então tem toda uma equipe que quer fazer o melhor, para levar o melhor ao nosso público. Cada um com seu respectivo trabalho, né? E aí a gente vai vendo o controle de qualidade, fazendo as pesquisas para a fantasia sobre o tema. Então, tudo isso é feito por uma equipe de 9 a 10 pessoas.

Nós não temos sede. Então, nós temos o endereço no escritório virtual, onde lá também tem salas, o que a gente quiser para fazer reuniões. Nós nos reunimos na AABB. Todos vão para lá com suas fantasias antigas. Somos convidados já para participar de congressos, simpósios e fazemos também eventos em igrejas que procuram muito, eventos filantrópicos; a gente faz Festival de Inverno em Garanhuns, nós participamos; escolas também, somos convidados para participar.

Então a gente não para, é o ano todo em atividade, né? Nas escolas vamos fantasiados e também informamos sobre o que é o bloco, tudo, incentivamos, né? É reunir as turmas para se falar um pouco antes da apresentação, exposições também nas escolas.

LOCUTORA (Cris Xavier): Dona Isabel, e qual mensagem a senhora deixa aqui para a gente sobre o Carnaval e sobre o Bloco da Saudade?

ISABEL BEZERRA: A princípio, os pais que incentivassem a ver as nossas raízes, porque meus filhos são criados sendo levados para ver a nossa cultura e hoje em dia eles curtem essa cultura. Na questão da educação, as escolas deveriam incentivar tanto o canto, as aulas de canto, de música e também essa parte de cultura, de cultura popular. Para todas as escolas, que isso existisse, iria ser um incentivo que faz falta, faz falta em tudo. A música é tudo e o conhecimento da nossa cultura popular.

Primeiro, eu fantasiaria essa criança de encarnado e azul, né? Do nosso pastoril, do Bloco da Saudade, para curtir com ela as nossas músicas. Aprendendo as nossas músicas, aprendendo o nosso dançar de frevo de bloco, incentivando, mostrando a nossa cultura de frevo de rua, frevo de bloco, o que a gente tem na nossa cultura pernambucana carnavalesca. Nós até já saímos com o Bloquinho da Saudade há uns anos atrás. Foi ótimo, foi ótimo. Então sempre a gente está aí junto de escolas para incentivar.

LOCUTORA (Cris Xavier): Em meio a tantas cores e sonhos, o Bloco da Saudade resplandece como uma joia preciosa, um tesouro guardado na história da capital pernambucana. É um símbolo de resistência cultural que se renova a cada ano e mistura as lágrimas de alegria ao recordar os tempos idos, mas nunca esquecidos.

Sim, o Bloco da Saudade se torna uma chama acesa e um sol brilhante nos dias de Carnaval, iluminando não apenas as ruas de Recife, mas também os corações que batem ao compasso dessa saudade, que é amor, história e vida.

E assim, queridos amigos, hoje chegamos ao fim desta viagem encantada pelos blocos do Carnaval de Recife. Entre risos e cores, danças e canções, aprendemos sobre o Bloco da Saudade, um tesouro que guarda as memórias de Pernambuco. Que essa alegria e essa energia contagiem sempre mais os nossos corações e que continuemos a descobrir e a valorizar as riquezas culturais e as tradições que fazem do nosso Recife um lugar mágico. O Carnaval de Recife espera por vocês com suas cores e encantos.

Até a próxima aventura!

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