LOCUTORA (Cris Xavier): O episódio de hoje está recheado de encanto com a Troça Carnavalesca Mista Verdureiras de São José. A Troça Verdureiras de São José é uma agremiação típica do Carnaval de Pernambuco, especificamente da cidade do Recife.
Troças carnavalescas como essa são parte importante da tradição festiva da nossa região e têm raízes históricas profundas. O nome Verdureiras refere-se às mulheres que vendiam verduras e frutas nas feiras da região, uma figura popular e emblemática na vida urbana do Recife.
Ela foi fundada originalmente em 1884 e tem uma história fascinante que remonta aos dias agitados do Mercado de São José. Ah, mas o tempo passou e a troça, como semente, adormeceu por um longo tempo. Foi a garra e a determinação de mulheres de fibra que, em 1983, as Verdureiras de São José foram resgatadas no Museu da Federação Carnavalesca de Pernambuco.
MARIA GRACIANE CAMILA: É, meu nome é Maria Graciete Camila, sou a presidente da agremiação, porque essa agremiação, ela estava no museu fazia muitos anos; ela é uma agremiação centenária. Na realidade, a gente não sabe nem direito qual é o dia que essa agremiação foi fundada. Mas minha irmã, que é do dia 2 de fevereiro, registrou ela como sendo do dia 2 de fevereiro. Então ela ficou como dia 2 de fevereiro.
Essa agremiação vai parar na mão da gente por conta da madrinha da minha irmã, Badia. E sempre ela conversava com mamãe — costura, essas coisas — ela dizia assim: ‘Comadre, tira a Verdureira. Comadre, tira a Verdureira’. Mamãe dizia: ‘Não, não, não vamos tirar não, ué’. ‘Não, comadre, tira a Verdureira. A gente precisa valorizar o bairro. A gente precisa que tenha mais agremiações aqui no bairro, porque o bairro está se acabando’.
Aí meu amigo: ‘Está certo, vou tirar a Verdureira’. Quando tirou a Verdureira, quem ficou como presidente da Verdureira foi minha irmã Gorete; eu não fazia parte. Chegou o Carnaval e Gorete viajou, e a agremiação ia aqui para a rua. Aí minha mãe, com raiva, disse: ‘Pronto, ela agora não é mais a presidente. A presidente agora vai ser você’. Pronto. Então, desde esse dia que eu herdei a Verdureira.
De quatro em quatro anos a gente renova, a gente vai renovando a ata e eu sempre como presidente.”
LOCUTORA (Cris Xavier): Graciete, você sabe como a troça se formou? MARIA GRACIANE CAMILA: É um grupo formado pelas pessoas que fazem
parte da redondeza do Mercado de São José. O pessoal que vendia verdura.
Na realidade, ela tem o ‘Mista’, mas você pode ver: o nome dela é Verdureiras, significa o feminino, mas creio eu que saía todo mundo.
LOCUTORA (Cris Xavier): Quem é folião de verdade já deve ter visto as Verdureiras pelas ruas. Vocês ainda desfilam e participam de concursos? Quem são os personagens que participam da brincadeira?
MARIA GRACIANE CAMILA: E a Verdureiras, ela começou a participar dos concursos da prefeitura, só que uma troça, financeiramente, o poder aquisitivo dela é muito pouco e dentro do concurso existem muitas regras. Você tem que ter assim 50 componentes, você tem que ter 15 músicos, 20 passistas, 10 damas, diretoria… são coisas assim, no meu ver, meio arcaicas. Mas a tradição, né? A gente vai fazer o quê? Aí a gente começou participando do concurso, fomos campeões. Aí chegou uma época: ‘O que é que a gente está fazendo?’. É muita responsabilidade para pouco dinheiro.
Eu quero uma agremiação irreverente. E nessa época eu tinha que ter, eu vinha com as verduras, vinha com a barraquinha cheia de verdura, o pessoal tinha que trazer alegoria de mão, era com as verduras. E aquilo ali… o pessoal era muito meio chato, por quê? Orquestra de frevo, meio-dia em ponto. Aí saía meio-dia em ponto. Então o pessoal vinha para brincar. Eu disse: ‘Sabe uma coisa? Saí do concurso. Vamos ficar só participando. Não somos obrigadas a ir para concurso, então a gente fica só fazendo apresentação’.
É tanto que a Verdureiras, ela só faz no máximo três apresentações no Carnaval. Como essa saída do concurso — que tinha que ter tema, tinha que ter aquela história, que tinha que contar, que não sei o quê — todo ano era uma confusão: ‘Vai ser o quê? Vai ser o quê?’. Quando foi um dia, eu disse: ‘Pronto, a gente vai sair de cigano’. Todo mundo de cigano.
E a partir desse momento, eu percebi que o fundamento dessa agremiação eram os ciganos. Verdureiras vem normalmente, geralmente com um grupo de ciganos. Os passistas, algumas pessoas… mas ela vem geralmente com cigano, uma espanhola, alguns figuras assim, feito um cordão, uma cor. Sempre tem um palhaço, uma coisa, mas geralmente e tradicionalmente ela vem com os ciganos.
LOCUTORA (Cris Xavier): Durante o Carnaval, a troça desfila pelas ruas com seus integrantes fantasiados de forma colorida e extravagante. Música, dança, mistério, alegria, sátira e crítica social são características comuns das troças pernambucanas e é claro que a troça Verdureiras de São José incorpora alguns desses elementos em suas apresentações.
MARIA GRACIANE CAMILA: Essa agremiação, ela tem uma entidade que rege ela. E ela é absoluta. Ela é uma agremiação absoluta. Está programado para vir 50 pessoas. Na hora de ela ir, geralmente não vão 50 pessoas. Só vai quem ela quer. Agora me pergunte por quê… eu não sei. Carnaval é complicado. Você faz uma programação na hora; o negócio só vai do jeito que tem que ser.
Primeiro, na semana pré, a Verdureiras saiu daqui, foi para o Pátio do Terço. Quando nós chegamos no Pátio do Terço, quem estava no Pátio do Terço? Um afoxé. Esse afoxé é de Iemanjá. Quando eu cheguei lá que eu olhei, eu digo:
‘Hum, estou ligada já no que é que está acontecendo’. Foi maravilhoso. Quando nós terminamos o nosso Carnaval, quem apareceu? O marinheiro. Quer dizer: o mar abriu, o mar fechou. Então você não tem… a Verdureiras é uma agremiação que ela mesma se programa dentro daquilo que ela quer.
LOCUTORA (Cris Xavier): Gente, que alegria contagiante a Troça Verdureiras de São José transmite. Graciete, como herdeira desse legado, alguém já contou a você o motivo da agremiação ter passado tanto tempo sem ir às ruas?
MARIA GRACIANE CAMILA: Existem livros falando dela, está entendendo? Mas como ela passou muito tempo no museu, muita coisa se perdeu. Se não tem continuidade, acaba, extingue. Mas existem livros que falam dela, da Verdureira, que ela é da época das Pás. São várias agremiações: era as Pás Douradas, era os Verdureiros… Era assim, antigamente eles tinham agremiações por categoria, cada um tinha sua brincadeira. E nessa época, contam os mais velhos que era muito violento.
Que ela deixou de sair justamente por isso: que teve uma briga entre — não sei dizer a você qual foi — que houve essa briga e dentro dessa briga parece que morreram três. Então aí ela foi e deixou de sair. Isso era Badia que contava. Eu estou contando porque eu já soube dela, está entendendo? Então é assim, é muito… uma coisa assim muito mística, eu acho.
LOCUTORA (Cris Xavier): E para encerrar, você pode nos contar alguma história engraçada ou intrigante que aconteceu em tantos anos de desfile?
MARIA GRACIANE CAMILA: Se contar uma… Verdureiras foi fazer o estandarte novo. O estandarte da Verdureiras sempre foi vermelho. ‘Se eu vou fazer um estandarte novo, vou colocar ele verde. Não é verdura? Eu vou botar ele verde’. Vamos fazer a brincadeira. ‘Aí vamos fazer uma apresentação, vamos fazer uma apresentação’. Aí bota tudo dentro do ônibus, faz apresentação, não sei o quê, não sei o quê. Desce todo mundo do ônibus. Desce tudo, domingo de Carnaval. Desce todo mundo do ônibus. Muito bem. Cadê o estandarte? Eu não percebi que eu estava sem o estandarte.
Quando foi na terça-feira para a Verdureiras sair: cadê o estandarte da Verdureiras? O estandarte da Verdureiras estava em Vitória de Santo Antão, na garagem, e o homem disse que só me entregava na quarta-feira. Eu fui fazer a apresentação sem o estandarte. Peguei o estandarte verde; me parece que ele está no Paço do Frevo.
Tem uma fantasia aqui que ela, no mínimo, no mínimo, no mínimo, ela tem uns 20 anos. E todo ano essa fantasia quer ir para a rua. Eu escondi, faz uns três anos que ela está escondida, porque senão chega uma pessoa: ‘Eu quero uma roupa’. ‘Vai lá em cima’ — que é tudo lá em cima — vai lá em cima, pega ela. Quando eu vejo, ela já está no meio da rua. Não é possível, senhor, que essa roupa vai de novo!
LOCUTORA (Cris Xavier): O Mercado de São José já foi o lar de muitos trabalhadores e trabalhadoras que animavam essa troça com sua alegria e
brilho, mas com o tempo as coisas mudaram e as pessoas foram se distanciando. É uma pena, mas olha só: desde 1983, a Troça Verdureiras continua firme e forte, pronta para espalhar cor e felicidade pelo Carnaval.
E por hoje ficamos por aqui. Curiosos para saber mais? Então não perca toda a magia e alegria de mais um grupo carnavalesco no próximo episódio.
